10/05/2008 15:21

Ciclone Nargis

O desastre em Mianmar (Birmânia) me deixou tão surpreso e atônito que não consegui mais escrever os posts que planejava. Duas semanas antes do trágico evento eu estava no país.

Durante essa semana, acompanhei os noticiários nacionais e os internacionais – principalmente, a BBC World. Os números de vítimas aumentavam a cada notícia – nos primeiros dias, desconhecia-se a dimensão do impacto do ciclone Nargis. E junto crescia a intransigência da junta militar para que a ajuda externa pudesse chegar ao país.

Com a desculpa que os estrangeiros poderiam influenciar ou mesmo sabotar o referendo de hoje, sábado 10 de maio, foram fechadas as portas às organizações humanitárias. A retórica oficial diz que Mianmar aceita doações de qualquer nação. Mas, na prática, os vistos de entrada não são emitidos.

A região do delta do rio Irrawadi (ou Ayeyarwaddy) é de difícil acesso. As estradinhas existentes possuem inúmeras pontes e estas foram destruídas. Apenas os intrincados canais podem servir como vias de comunicação. Isso tudo complica a vida daqueles que conseguiram passar pelo desastre natural. A cada dia que passa, as possibilidades diminuem para que os sobreviventes possam ter comida e água potável.

A junta militar de Mianmar pode ficar na História como uma das mais selvagens de nosso tempo. Se milhares de pessoas morrerem a partir de agora pela falta de apoio e pelo excesso de paranóia, a junta militar poderá ser considerada como a responsável por um segundo desastre.

Existem desgraças que podem trazer uma luz no final do túnel. Esta pode ser uma delas. Dentro de alguns meses, quando os birmaneses se restabelecerem e acordarem, eles vão se lembrar da atitude egoísta do governo. A falta de visão do governo militar de Mianmar provocará, sem nenhuma dúvida, uma onda de rejeição tão grande – no país e no mundo – que o futuro da junta está com seus meses contados.

Nargis deixou mais de um milhão de desabrigados, mas seu impacto poderá ainda perdurar por mais tempo. Que seus violentos ventos consigam ter ainda a força para inspirar os governantes a lutar pela sobrevivência de seu povo e não apenas para se manter no poder.

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04/05/2008 20:58

Como é de conhecimento de todos, a região sul de Mianmar, incluindo a capital Yangon, foi devastada pelo ciclone Nargis no último sábado. Cerca de 23.000 pessoas morreram e outras 41.000 estão desaparecidas. O desastre natural soma-se à ineficiência do governo e traz mais um enorme desafio a esse povo tão estóico. As imagens e os relatos deste blog são ANTERIORES ao ciclone.


A magia da Rocha Dourada

Quando abri o guia da Birmânia, ainda no Brasil, e vi a foto de uma rocha dourada, ameaçando despencar do alto da montanha, decidi que não mediria esforços para vê-la com meus próprios olhos e, se possível, tocá-la. A rocha sagrada parece estar segura por apenas um fio de cabelo – literalmente. Na verdade, uma das lendas conta que a rocha converteu-se em um santuário há 2.500 anos (quando Buda ainda estava vivo) e que estaria colocada sobre um de seus fios de cabelo. Outro mito narra que a pedra foi trazida da beira do mar até as montanhas por anjos que a teriam deixado em equilíbrio perfeito. Mais uma vez, um fio do cabelo do Buda teria sido o elemento necessário para que a rocha não caísse!

Depois de cinco horas de estrada rumo ao sul do país, chego em Kinpum. A partir desse vilarejo, nenhum veículo particular pode seguir a estrada em ziguezague – óbvio, exceção feita aos senhores militares que dominam o país. Cogito em fazer a trilha de 10 quilômetros pela montanha, mas sou avisado que o último trecho deve ser realizado a pé, de qualquer jeito. Melhor reservar um pouco de energia para a subida final. Entro em um dos caminhões que fazem o transporte coletivo e lá vamos nós – 36 birmaneses, 3 turistas chinesas e eu – rumo à Kyaikhtiyo (pronuncie Qui-ai-tio e esqueça o resto das letras).

Quarenta e cinco minutos e 825 metros de altitude depois, chegamos ao ponto final do caminhão. Pelo menos, é o que as três chinesas e eu entendemos. Saímos do veículo. O motorista espera alguns minutos e, com todos os birmaneses a bordo, segue caminho acima. Nos sentimos ludibriados, enganados. Tento ainda parar o caminhão, mas o motorista nem tira o pé do acelerador. Eu saio da frente. A explicação: as curvas da última etapa da estrada seriam tão perigosas que o governo decidira que os estrangeiros estariam mais seguros no chão.


Os estrangeiros são obrigados a subir a pé o último trecho até Kyaikhtiyo, mas alguns poucos birmaneses também caminham como parte de sua peregrinação.

Outros quarenta e cinco minutos e mais 280 metros no altímetro e estou no topo da serra. Antes de poder ver a rocha dourada, devo passar por incontáveis lojas que vendem comidas, bebidas e artigos religiosos. São quatro da tarde, o calor já é suportável. Na entrada do santuário, deixo sapato e meias. Mas sinto que o piso ainda está morno. Imagino a temperatura do chão ao meio-dia.

Encontro vários alojamentos para os birmaneses e alguns monastérios reservados para monges. Ninguém sobe e desce à Kyaikhtiyo no mesmo dia. Todos passam pelo menos uma noite aqui em cima. Pa Than, um senhor de 60 anos de idade, vive na capital e veio para ficar uma semana. Ele é um dos doadores de um monastério e explica que o lugar é sagrado. Vários monges vem fazer seus votos aqui na Rocha Dourada.

Chego na praça principal. Todo o piso é coberto por mármore branco, o mais fresco possível. Avisto a pedra e vou em sua direção. Ela parece mesmo querer cair no penhasco. Uma pequena passarela leva até sua base. Apenas os homens podem chegar perto e tocá-la. Quase todos compram um envelope com cinco lâminas douradas. Com cuidado, cada retângulo é grudado na pedra.


Kyaikhtiyo, do alto de seus 1.105 metros de altitude, domina o vale abaixo.


Um monge gruda lâminas de ouro na pedra, num ritual de respeito com a Rocha Dourada.

O sol da tarde perde sua força, mas esquenta as cores. Centenas de pessoas se reúnem ao redor da rocha. Rezam, repetem mantras, queimam incenso e oferecem doações. Monges sentam no solo, em um lugar reservado, e passam a cantar textos sagrados. Todos ouvem com respeito. Os visitantes estão felizes por estar em Kyaikhtiyo. No budismo Teravada, alcançar um lugar santo como este significa acumular grandes méritos.


Estar em Kyaikhtiyo é sinônimo de alegria.

À medida que a luz se dissipa, o número de devotos na praça principal aumenta. Há um ambiente de festa, mesmo se a religiosidade prevalece, sempre misturada ao misticismo e à superstição. Com o pôr do sol, holofotes iluminam a rocha com vigor. A pedra fica ainda mais dourada e contrasta com o céu azul escuro – que em poucos minutos passa a ser negro. Não consigo sair do local. Parece que existe um imã. Para que ir ao hotel? Ou até mesmo jantar? Sento-me no chão e deixo a vida passar. Não é todo dia que posso estar num lugar tão mágico como Kyaikhtiyo.


A Rocha Dourada ao anoitecer. O movimento de fiéis é maior à noite, pois a temperatura amena ajuda.

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30/04/2008 00:04

Bagan: 6 horas da manhã

Bagan
– Em 1044, o imperador birmanês Anawrahta deu vida a uma planície árida no centro do país. Transformou o vilarejo de Bagan na capital de seu império, unificou a Birmânia, implantou o budismo Teravada no reino e deu início à construção de centenas de templos.

Hoje, Bagan ainda mostra um pouco da importância desse centro espiritual e cultural. Espalhados por uma área de 42 quilômetros quadrados, quase 3.000 santuários – erguidos entre o século 11 e 13 – conseguiram vencer intempéries e invasões.

Esperei 35 anos para ver esse jardim interminável de estupas. Porém, como os templos estão espalhados pela planície tórrida, eu precisava encontrar um meio de transporte apropriado para ir de um santuário a outro. A pé, estaria limitado a desvendar alguns parcos quilômetros. Ainda mais com o sol forte de verão na cabeça. A solução: uma bicicleta!

Seis horas da manhã, monto no selim duro e começo a pedalar. Se o campo plano facilita, logo me dou conta que as trilhas para chegar aos templos são de areia fofa. Preciso de força dobrada nas pernas. Mas o esforço vale a pena. Logo chego ao templo um pouco mais alto que eu buscava. Retiro os sapatos, entro no santuário e encontro uma escada estreita. Quase às cegas, consigo subir ao segundo andar e chego a uma plataforma. De lá de cima, tenho a vista que eu esperava: estou rodeado por centenas de estupas, como se tivessem sido semeadas pela planície. A luz do amanhecer e o mormaço que anuncia o calor forte do dia dão às minhas imagens um tom mágico, quase que intemporal.







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25/04/2008 00:00

Mandalay e as antigas capitais

Mandalay
– Em 1973, tirei um visto para a Birmânia. Na época, só era permitido ficar 7 dias no país, tempo suficiente para chegar na capital Yangon, comprar os bilhetes de trem e partir em direção a Mandalay e a Bagan. Nunca cheguei a utilizar o visto: o roteiro daquela viagem modificou-se completamente e esqueci a Birmânia.

Trinta e cinco anos depois, estou pronto para cumprir o mesmo roteiro. Poderia tomar o vagaroso trem (11 horas de viagem), mas, com o calor aumentando, prefiro um meio de transporte que não era disponível na época: o avião. Chego na segunda cidade do país ainda em pleno Thingyan, o Festival da Água. Mas o que me interessa mesmo é visitar a região, centro de vários reinos durante séculos.

Já tenho meu itinerário definido. Posso visitar as três antigas capitais ao redor de Mandalay em apenas um só dia. Às 7 da manhã, já estou na rua e negocio com um taxista o trajeto. Subo num mini-carro, algo entre um triciclo motorizado asiático e um veículo com quatro rodas. Aliás, em 20 segundos passamos de quatro a três rodas – literalmente. Uma das rodas quebrou! Pronto, já devo me preparar para mais uma longa negociação com algum outro taxista. Mas meu motorista não quer perder o freguês: pede 10 minutos e ele mesmo troca a peça quebrada!

Meia hora depois, chegamos em Sagaing, que foi capital do país duas vezes, em 1315 e em 1760. Hoje o poder religioso substituiu o político e é um dos grandes destinos de peregrinações. Todo monge de Mianmar passa, pelo menos, uma semana em algum dos monastérios que existem ao redor da colina principal. Resolvo subir a escadaria da colina e aproveitei para visitar cada um dos pequenos mosteiros que estava no caminho.


Um dos monastérios da colina de Sagaing estava todo ornado com bandeiras budistas da linha Teravada. As cores são diferentes do que as do budismo tibetano, o verde tendo sido substituído pelo rosa, cor das vestimentas das monjas.

Já era quase meio-dia quando resolvi partir para Inwa, local da segunda capital. O carrinho deixou-me nas margens de um canal do famoso rio Ayeyarwaddy, o principal do país, e atravessei de balsa. Do outro lado, uma charrete me esperava para que eu pudesse dar uma volta pela ilha. Nem pensar em caminhar no sol com o calor que faz.

Fundada em 1364, Inwa foi capital da Birmânia durante quase cinco séculos. Entre plantações, centenas de estupas e monumentos marcam a antiga grandeza do local. Hoje, vale a pena visitar três ou quatro monastérios que continuaram de pé. O mosteiro Me Nu Okkyaung, uma construção de sete andares em tijolo, mas que imita os detalhes das construções em madeira.


Me Nu Okkyaung ainda é utilizado pelos monges.

Por mais que eu beba água, o calor das duas da tarde chega ao ponto de ser insuportável. Tenho minhas dúvidas se o pobre cavalo da carroça conseguirá me levar de volta à balsa, para que eu possa cruzar o canal. Meu relógio aponta 39 graus!

De volta ao carrinho – sim, ele continua funcionando bem, mesmo depois do susto matinal – vamos para Amarapura. Também foi capital do reinado por duas vezes, em 1783 e em 1840. Infelizmente, seu antigo palácio foi desmontado e o material utilizado na construção da fortaleza de Mandalay. Hoje pouco coisa sobrou. A principal marca da grandeza de Amapura é a ponte de madeira U Bein, sobre o lago Thaungthaman, de quase 300 metros de comprimento. Foi montada com teca, uma madeira nobre local, recuperada dos escombros dos palácios de Inwa e Sagaing.

Foi dessa ponte de madeira que compreendi mais uma vez a importância da água para os birmaneses nessa época de festas. O lago de Amarapura é um dos lugares escolhidos para a celebração do Festival da Água e todos os birmaneses fazem questão de entrar, de roupa e tudo, dentro d’água. Alguns até colocam uma mesinha de bar e cadeiras DENTRO do lago para curtir as celebrações! A verdade é que, só de ver a água, eu já senti com bem menos calor. Não é apenas uma coincidência que esse festival aconteça no início da época mais quente do ano!


Todos os foliões entram dentro do lago Thaungthaman para celebrar o Festival da Água. E também se refrescar!


Bar aquático no lago Thaungthaman.

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23/04/2008 00:00

Farsa ou maionese?

Recebi essa foto e resolvi colocar no blog como sinal de alerta. A imagem teria sido fotografada por um estrangeiro (no dia 20 de março) e agora percorre o mundo.

Essa foto poderia ser uma das provas da farsa dos chineses no Tibete. Não sei em que cidade a foto foi tirada, mas o triciclos são bem parecidos aos de Lhasa, capital do Tibete. Comparei com uma foto que tirei de um triciclo na mesma cidade e a cor verde, a decoração amarela ao lado e o teto são os mesmos. Também podemos notar que os civis (de pé e no triciclo) tem feições bem semelhantes às dos tibetanos. Os policias, vestidos com seus uniformes típicos, seguram roupas vermelhas e amarelas... coincidentemente, como os mantos dos monges budistas tibetanos! Outra supresa: todos os policias tem suas cabeças totalmente raspadas, outra característica dos monges. A imagem também poderia dar a entender que eles estariam esperando alguma ordem para trocarem de roupa, vestirem-se como monges e criar alguma confusão que, mais tarde, viria a colocar a culpa nos budistas tibetanos.

Será mesmo que um país tão próspero e poderoso como a China, na véspera de realizar suas Olimpíadas, usaria uma tática tão vil e mentirosa? E ainda mais, deixar os policias com os mantos nas mãos, no meio da rua? Talvez eu esteja viajando na maionese e os policias chineses queriam apenas levar mantos novos, como presente, aos monges tibetanos...


E você, o que acha da foto? Foi montada? Incrimina? Alguma outra idéia ou possibilidade?

PS 30/4/08: Nem farsa, nem maionese, mas Hollywood! Graças a Karen Monesi, uma budista tibetana (brasileira) que vive na India, o mistério da foto acima foi desvendado. Como ela mencionou no comentário # 21, a imagem é de um filme rodado no Tibete há uns cinco anos. Como os monges não queriam participar como figurantes no filme, os policiais locais teriam se prontificado a se disfarçar de devotos budistas. Por isso, os militares nas ruas estariam com as roupas de monges em suas mãos. Entretanto, isso não impede o fato que policiais chineses tenham podido usar, em março último, esse mesma estratégia e disfarce. Mas a prova disso não seria essa foto...

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21/04/2008 09:55

Lavando a Alma!

Yangon -
No hotel, encontro Thida Mai e conto minhas primeiras peripécias. Ela sorri, como se estivesse ouvindo uma história da boca de seu filho de 8 anos. “Você não viu nada ainda. Essas brincadeiras são pouca coisa em comparação ao que você verá amanhã, quando o festival realmente começar. Não deixe de ir à Inya Road!”

No dia seguinte, com coragem, toalha do hotel e sacos de plástico, decido visitar alguns palanques do Festival da Água. Começo a entender a equação e a brincadeira. As mangueiras funcionam de manhã, das 9 h ao meio dia, e à tarde, das 15 h ao por do sol. Os jipes e as camionetas abertas passam bem pertinho das arquibancadas para que os passageiros – geralmente famílias inteiras – possam ser devidamente molhados. Os veículos chegam a ficar parados para receber uma constante ducha. Parece até um lava-a-jato! E as janelas permanecem abertas! Algumas camionetas transportam um barril de 200 litros de água na traseira, para que os passageiros possam também regar os que estão na arquibancada. Ou seja, de carro ou no estande, o objetivo é molhar e ser molhado!


Na maioria das arquibancadas, um sistema de chuveirinho assegura que os foliões estejam molhados o tempo todo.


Até as bicicletas não escapam dos jatos de água lançados dos estandes.

Consigo manter minha câmera relativamente seca. Tomo coragem e resolvo ir a Inya Road, o point da moçada. O taxista avisa que é impossível chegar de carro até o local. Ele me larga a quase um quilômetro. O jeito é caminhar. O movimento de gente aumenta, todos fluindo na mesma direção. Para os vendedores ambulantes – os únicos que parecem estar trabalhando – essa massa de gente significa uma boa oportunidade para vender bebidas e comidas.

Para participar da festa do Ano Novo (Thingyan), a entrada diária – um crachá plastificado – para brincar numa arquibancada custa de 15 a 20 dólares. Para os quatro dias, pode valer 50. Considerando que uma grande parte da população de Mianmar não ganha esse valor como salário mensal, essa brincadeira de fim de ano nas arquibancadas, com direito a som e snack, está reservada aos capitalinos de classe média. Alguns estudantes economizaram seus parcos dólares durante o ano todo para participar do evento.

Um dos sucessos de Inya Road é sua localização ao lado de um lago e de uma área verde. Por isso, foram montados no local mais de 20 estandes, cada um com seu sistema próprio de som e de água. Esta é bombeada do lago e chega em mangueiras tipo Corpo de Bombeiros, com pressão total. À medida que me aproximo da confluência com Inya Road, o som frenético do hip hop aumenta. O ritmo alucinante não deixa ninguém parado. A avenida toda dança e pula! São apenas 10 horas da manhã, mas garrafas de cerveja e de whisky passam de mão em mão. Aqui não é o ambiente controlado e organizado dos estandes perto do hotel. Começo a entender que, em Inya Road, vale tudo!




Quatro dias de festas non stop em Inya Road!


E lá se vão litros e litros de água por segundos!!!

Como Inya Road está em declive, a água de todas as arquibancadas escorre em uma única direção. No final da rua, encontro um riacho: tem até correnteza! As crianças menores aproveitam para tomar banho, como se estivessem dentro de um caudaloso rio. Fico abismado com a quantidade de água que é desperdiçada. São milhares de litros por minuto. Em todo o país, milhões. Talvez bilhões de litros!


A criançada brinca na correnteza do riacho que vem de Inya Road.

Tento fazer rápidos cálculos de toda essa água. Mas sou interrompido por gritos de alegria da criançada que pede para ser fotografada. Todos estão contentes e o importante é celebrar o Ano Novo. Em última instância – pensando com certa condescendência ambiental – esse turbilhão de água vai acabar no mesmo lago de onde saiu. Para um povo que vive reprimido por um duro regime militar, esse feriadão de Thingyan representa uma pausa na busca sofrida de seu ganha-pão cotidiano. Ninguém quer falar de política. Preferem esquecer os duros meses que passaram e deixar que a água lave todas as emoções, trazendo um Feliz Ano 1370!

E, aproveitando, Feliz Dia da Terra amanhã!

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19/04/2008 14:34

Nesses últimos 12 dias estive em Mianmar (antiga Birmânia), um país fascinante e complicado. Uma das complicações é que a Internet, além de ser lenta, tem censura. Por isso, não consegui colocar nenhum post desde a terra dos pagodes dourados... Mas, mesmo se com alguns poucos dias de atraso, aqui vão minhas historinhas...


Muita Água e Feliz Ano Novo

Yangon
- Nos países do sudeste asiático – como Tailândia, Camboja, Laos e Mianmar – o Ano Novo é celebrado com muita água. Para os budistas da linha Theravada, o líquido cristalino simboliza a vida, purifica os eventuais pecados e traz renovação para o novo ciclo. Portanto, receber uma benção com água significa receber também “bons fluídos” – literalmente – para o ano que se inicia.

Até uns 10 ou 20 anos atrás, a tradição era colocar água – perfumada com flores – em um vasilha de prata e aspergir gotas sobre as pessoas queridas. Mas esse ritual gentil transformou-se na maior festa nacional dos quatro países e tomou proporções de um verdadeiro carnaval. Durante cinco dias, mais de 130 milhões de habitantes não pensam no seu cotidiano e se dedicam apenas a brincar com muita água. “Proteja a sua câmera fotográfica e coloque seu dinheiro e documentos em um saco de plástico”, disse Thida Mai, uma birmanesa que vive nos Estados Unidos e que vem anualmente visitar a família nessa época das festas. “Ninguém fica seco durante esses dias.”

O Festival da Água é celebrado em Mianmar entre os dias 13 e 16 de abril. Mas, na prática, muita coisa começa a acontecer na véspera do feriadão, no dia 12. Por isso, saio do meu hotel em Yangon prevenido e sigo à risca as recomendações de Thida. Não demora nem 30 segundos para o primeiro susto: um balde de água, jogado do terceiro andar do prédio vizinho, despenca sobre a cabeça de duas jovens que passam ao meu lado na calçada. É o primeiro banho delas – certamente não o último. Aproveito a ocasião: troco uma risada de cumplicidade com os garotos do terceiro andar e esperamos juntos as próximas vítimas. Chuáaaa...


Caminho apenas 20 metros e sinto as primeiras emoções do Festival da Água. Três jovens, pegos de surpresa, são encharcados com o balde de água jogado do alto do prédio!

Antes que eu passe a ser o próximo alvo, sigo meu caminho, olhando para todos os lados e, principalmente, para cima. De pé em uma camioneta aberta, cinco adolescentes ameaçam me molhar, usando garrafas PET. Levanto a câmera (protegida com camadas de plástico) como se erguesse uma bandeira branca de paz. Por um instante, penso que um estrangeiro é uma presa ainda mais fácil e divertida... mas sou poupado! Percebo na cara deles quase que um sorrisos de compaixão!

A cada passo que dou, checo os riscos que tenho pela frente. A poucos metros, uma jovem na calçada segura a tal da vasilha tradicional prateada, cheia de água. Ela espera o próximo pedestre para completar seu ritual. Saio de perto e me coloco em uma posição perfeita para a foto, torcendo para que a moça de vestido negro que se aproxima não fuja da raia. A menina sorri, leva a vasilha na altura dos ombros da desconhecida e derrama um litro de água sobre o vestido negro. Tudo sem um pingo de agressividade e com muitos sorrisos, pois faz parte da tradição deixar que o banho aconteça. Na verdade, a água não deve ser evitada pois poderia trazer azar. “Traz riqueza para o ano seguinte”, afirmou Mying Mying, a que deu o banho de maneira tão suave.


O banho de água no festival deve ser aceito sempre na esportiva e com grandes sorrisos. Afinal, é boa sorte do ano seguinte.

Continuo caminhando pelo centro da capital Yangon. Em uma das avenidas, alguns operários terminam de montar um palanque de madeira. No dia seguinte, dezenas de jovens estarão empilhados nessa arquibancada, prontos para molhar os que passarão por perto. Contarão com uma arma adicional: um cano de duas polegadas foi acoplado a uma tubulação de água da rua – tenho minhas dúvidas se foi legalmente. O líquido, com pressão, terá um tremendo poder de fogo!

Nos últimos anos, a vasilha prateada também foi substituída por revolveres e fuzis de plástico. Sonho de qualquer menino de 7 anos, as armas coloridas (certamente produzidas na China ou na Tailândia) foram desenhadas para armazenar uma boa quantidade de munição. Um garoto, a bordo de uma camioneta de transporte público, passa distribuindo sua “água benta” a toda e qualquer pessoa que está em seu raio de ação.


Sorriso maroto e muito esguicho para quem chegar perto.

Consigo caminhar toda uma manhã pelo centro da capital sem receber nenhum banho. Retorno são, seco e salvo em direção ao hotel quando sinto, na minha nuca, algo parecido com um choque elétrico. Assustado, viro a cara e encontro o sorriso suave de Mying Mying. Ela acaba de despejar uma vasilha cheia de água – dessa vez, gelada – nas minhas costas. Estou encharcado, mas também abençoado…

Mais Festival da Água no próximo post.

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17/04/2008 00:00

Butão: Fauna Rica

Nosso motorista Ib Khan dá uma freada brusca. Eu estava na janela certa, com a lente correta e com velocidade e luz exata. Um macaco langur cinza está confortavelmente sentado em um galho e tenho o ângulo perfeito para fotograf¬á-lo. Sem assustá-lo. Nem preciso abrir a porta. Fico contente. O fato que possamos encontrar um primata na beira da estrada – mesmo se estreita, esta é a principal via de acesso ao centro do país – indica claramente que os habitantes das florestas sentem-se em um ambiente seguro.


Um langur cinza, na beira da floresta de rododendros e magnólias.


Poucos quilômetros depois encontramos a bifurcação para o vale de Phobjika. Continuamos com a lógica butanesa de estrada: quando não se desce, sobe. Ou vice versa. O vale de Phobjika manteve-se isolado por muito tempo e até hoje o principal vilarejo, Gangtey, não possui luz elétrica. Mas a razão não é uma simples falta de estrutura, mas a proteção de uma espécie de ave em extinção, a grua de pescoço negro (Grus nigricollis). As gruas escolheram esse vale a 2.900 metros de altitude como sua residência de inverno, de novembro a março. Durante o resto do ano, elas regressam ao seu habitat natural, o planalto tibetano.

Quando eu havia marcado a data de minha viagem ao Butão, eu já sabia que não encontraria mais as duas centenas de pássaros que visitam Phobjika anualmente. Mas, sempre confiante e otimista, inclui mesmo assim Phobjika no roteiro. Quem sabe existem alguns animais retardatários e machucados – ou até mesmo pássaros friorentos que tenham decidido curtir um pouco mais a temperatura amena do vale?

Dito e feito. No meio do brejo formado por dois córregos que vêm dos nevados, ali estão três gruas. Consigo algumas imagens delas no chão. De repente, sem mesmo me avisar, alçam vôo. Espero alguns minutos para que as três aves regressem ao solo, mas elas sobem cada vez mais, sempre em círculo. Será que cheguei no momento final de embarque. O guia Chador responde que sim: “Quando partem para o Tibete elas dão três voltas em cima daquele templo”, afirma, mostrando-me o santuário. “Foi o que elas acabaram de fazer. Agora só regressarão em novembro.”


As três gruas retardatárias ciscando no brejo do vale Phobjika.


As três gruas em vôo lembram o logo do partido DPT que venceu as eleições parlamentares.


Depois de confirmadas as três voltas em cima do templo, elas partem para o Tibete.

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15/04/2008 00:00

Natureza do Butão: um paraíso para botânicos

A primeira surpresa que tive no Butão foi observar que as águas de todos os rios são cristalinas. Porém um olhar um pouco mais minucioso também me mostrou que suas margens começam a incluir pontos brilhantes azuis, brancos, verdes ou rosas. São as embalagens metalizadas de snack food e de produtos que chegam da Índia. Também vi um ou outro saco de plástico, embora a grande maioria dos estabelecimentos comerciais usem agora bolsas de tecido ou de papel.

Essa poluição – ainda que em estado embrionário – é explicada por Kempo Phunto Tashi, o diretor do Museu Nacional de Thimphu. “Todos esses produtos são novos para nossa população. Na década passada, ainda usávamos folhas de bananeira ou bules de bambu como prato. Depois, poderíamos jogar fora e a natureza tomava conta. Os hábitos continuaram, mas o problema é que o plástico não se desintegra como os produtos naturais”, afirma. “Estamos atentos para que nosso país não se torne uma lixeira. A população é ingênua e a educação já começa nas escolas, nos monastérios e serviços públicos.”

O pequeno reino do Butão (com uma área e forma retangular semelhante ao Espírito Santo) é um país de picos nevados e vales verdejantes que chegam até a planície do sub-continente indiano. As altitudes variam de 7.500 a 100 metros! O país reservou 26% de seu território para áreas protegidas e 65% das terras são ainda cobertas por florestas temperadas e de coníferas.

Para sair de Thimphu em direção aos vales centrais, preciso passar por um passo de montanha a 3.150 metros, Dochu La. O lugar é ornado com 108 estupas budistas e milhares de bandeiras de preces. A paisagem na outra vertente da montanha é totalmente diferente: uma floresta variada e com árvores centenárias. Estamos na primavera e pontos vermelhos aparecem. São rododendros, uma espécie endêmica do Himalaia. Continuamos a descer e vejo um arbusto florido. Logo, uma árvore. Suas flores vermelhas são redondas como um pompom. Agora são cinco, dez, vinte árvores. Estamos cercados de rododendros! Estamos numa floresta de flores!


Um buquê de rododendros vermelhos: mais bonito que árvore de natal!



Rododendros em volta da estupa de Chendebji.


Durante a viagem ao Butão consegui fotografar quatro espécies de rododendros floridos. Além do vermelho, encontramos brancos, rosas e amarelos. No total, existem umas 50 espécies no país e só nas encostas de Dochu La, já foram identificadas 16 de rododendros.


Encontramos a flor rosa do rododendro no alto de um penhasco: Zsolt e eu vamos atrás.


Mas a maior surpresa estava ainda por chegar: magnólias floridas. Como as árvores ainda estão sem as primeiras folhas, o contraste das pétalas brancas, iluminadas pelo sol, sobre o fundo cinza das montanhas ou verde escuro das florestas é ainda mais impressionante. Nosso motorista Ib Khan tem a maior paciência conosco. Catarina, uma botânica nata, quer parar em cada curva! Chegamos à noite no nosso destino, mas o show de flores valeu a pena!


Frondosas árvores de magnólias brancas!

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12/04/2008 00:00

Continuação do post anterior

No Ninho do Tigre (parte 2)


Somos recebidos em Taktsang, o Ninho do Tigre, por um labirinto de bandeiras de prece.


Como acontece na porta de todo templo no Butão, as máquinas fotográficas fazem um retiro forçado. As imagens dos lugares sagrados são reservadas apenas para os olhos. Conformado, fico com as mãos livres. Os dois santuários, com paredes pintadas, símbolos budistas pendurados e odor de incenso e de gordura queimada, demandam uma mudança de astral – nada de pensar que estou ainda no pique de subir montanhas.

É no terceiro templo, precisamente o dedicado a Buda Padmasambava, onde fico estático, surpreso por algo inexplicável. Beleza, magnetismo, profusão de cores? Minha respiração transforma-se, sinto necessidade de sentar. Logo depois, de sossegar e fechar os olhos. Meus companheiros Zsolt e Catarina fazem o mesmo – a vibração de paz parece ser maior do que qualquer outra necessidade.

Não sei quanto tempo passa. Sinto-me diferente, como se tivesse bebido uma infusão de serenidade, compaixão e amor. Ninguém quer emitir nenhum som. Saímos do santuário e descemos descalçados a escada, pisando no chão frio. O vento lá no alto do desfiladeiro começa a ganhar força.


O monastério está a mais de 500 metros acima do nosso ponto de partida e a 900 metros acima do vale.

Exatamente no andar de baixo está a caverna onde Padmasambava – e tantos outros sábios – teriam meditado meses e anos a fio. Penetramos no recinto com o maior respeito. Um monge oferece um fino barbante colorido (chamado sunkay) para ser colocado em volta ao pescoço. É uma forma de receber uma doação para apoiar o templo. Aceito e ganho um amarelo, com um dorje (simboliza o relâmpago) na extremidade. O lama amarra as duas pontas, dá três leves sopros sobre o nó e coloca a benção ao redor da minha cabeça.

Meu compadre Zsolt faz o mesmo. O monge repete o ritual. Quando está no auge – os três sopros sobre o recém criado nó, junto com um manta – seu celular toca. E toca alto, em um ritmo animado, que parece até um rock butanês. Levamos o maior susto. Mas o lama, tranquilo, continua com suas duas tarefas, como se tivesse dois cérebros: fala energeticamente pelo telefone e agora benze o sunkay da Catarina. Ela não acredita na cena.

Foi bom termos tomado um choque e caído das nuvens. Temos vários quilômetros pela frente e a trilha do Ninho do Tigre conta com trechos ingrimes, estreitos e perigosos. É na descida que se toma mais escorregões. O tempo está cada vez mais encoberto e frio. Uma quarta latina junta-se ao grupo. Sabrina, uma chef de cozinha cordon bleu. Ela também havia recebido um barbantinho consagrado pelo monge e pelo celular.

A cena polêmica é motivo de horas de discussões. A benção de um sunkay passou a ser um mero ritual mecânico? O celular melhora as comunicações, mas também traz a banalização? Teria sido um telefonema importante, de um lama superior, que ele não poderia deixar de atender? Estava ele concentrado na benção e no mantra, mesmo se falando por telefone? Deixo as perguntas no ar. E talvez você também queira opinar...


Um jovem monge acompanha nossa saída do Ninho do Tigre.
Com ou sem celular? :)


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10/04/2008 00:00

Enquanto viajo pelo leste da Índia – onde não deverei ter conexões internet – continuo o blog com alguns posts (a cada dois dias) sobre a viagem ao Butão.

No Ninho do Tigre (parte 1)


Paro – O Butão foi palco de incontáveis batalhas. As mais importantes não foram entre humanos que atacavam ou defendiam territórios. As que ficaram na mente do povo e viraram lendas foram as pugnas mágicas entre poderosos gurus e forças espirituais negativas. Uma das mais famosas lutas aconteceu quando Guru Rimpoche, o Buda Padmasambava (aquele que está na Tangkha do Tsechu de Paro – veja post de 22/3 e vídeo de 29/3), voou às costas de uma tigresa para vencer demônios que eram hostis à implantação do budismo no Butão. Ele acabou no topo de um desfiladeiro de 900 metros de altura e lá teria ficado a meditar numa caverna durante três meses. O lugar virou sagrado, transformou-se em um monastério e tomou o nome de Taktsang, Ninho do Tigre.

Lá de baixo, as paredes do mosteiro são como pequenos pontos brancos longínquos. Quando a estradinha termina, nosso guia Chador pergunta se estamos preparados para a caminhada. Eu olho para o lado e vejo alguns cavalos esperando montaria. “Não, nem pensar!” respondo para minha mente preguiçosa. Mesmo se o poderoso Padmasambava chegara lá em cima com a ajuda de uma tigresa, eu usaria minhas próprias pernas.


Visitantes mais idosos usam mulas para evitar o desgaste da subida.

São 8:30 da manhã. O céu está totalmente azul e o ar fresco dá um vigor adicional. Olho o altímetro do relógio: 2.640 metros – 400 metros acima da cidade de Paro. Dou o primeiro passo, sabendo que tenho pelo menos outros 5.000 pela frente. Algo dentro de mim diz que esse passeio não é um treking turístico.

Os primeiros 100 metros de desnível são mais fáceis que os segundos. Mas basta eu ver, entre os galhos, a montanha onde está empoleirado o pequeno monastério para recuperar o fôlego. A monotonia do ziguezague em subida também ajuda a manter a concentração. Numa das paradas, encontro dois monges, com suas roupas vermelhas e alaranjadas, sentados em uma pedra, olhando lá para cima. Cada um carrega nas costas um grande vulto. Nos comunicamos apenas com sorrisos, pois eles não falam inglês. Chador chega e confirma o que eu suspeitara: “Eles vão para Taktsang fazer um retiro de três anos, três meses e três dias”, diz o guia. Meu sorriso amável passa a ser uma reverência de respeito.


Esse monge vai passar mais de três anos no monastério

Estamos na segunda hora de subida quando chegamos a uma cabana. Surpresa: todos os caminhantes são recebidos com uma taça de chá. Coloco mais açúcar do que o normal e sento-me numa cadeira com vista para o monastério. Pela primeira vez, Taktsang parece estar perto. Checo a altitude: já passamos dos 3.000 metros.

Continuamos a ascensão e, após uma curva na trilha que beira o desfiladeiro, o mosteiro aparece à nossa frente. Estamos a 3.145 metros, 505 acima do ponto de partida. Um detalhe: embora estejamos no mesmo nível, um tremendo buraco nos separa do templo. Precisamos descer 100 metros, passar por uma cachoeira e subir outros tantos metros. Na descida, encontro um santuário. Os devotos entram para acender uma pequena lâmpada de óleo. Antes usavam manteiga de iaque, hoje gordura vegetal.


Um cálice de óleo e bandeiras de prece no santuário, antes da chegada ao Ninho do Tigre.

No total, levamos três horas para chegar até o portão do monastério. Se não tivéssemos parado tantas vezes teríamos feito o percurso na metade do tempo. Mas para que ter tanta pressa? O prazer de saborear essa subida com calma rende muito mais.

(continua)

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08/04/2008 00:00

Todos os caminhos levam a Kathmandu

Os cinco dias na capital nepalesa foram intensos: fotografar protestos, conseguir entrevistas, escrever matérias e preparar fotos. Dormi poucas horas por noite e esse mal-estar poderia acabar fragilizando o corpo. Assim, resolvo dar um tempo e passar os dois últimos dias da minha estadia no Nepal em Pokhara, um vilarejo com vista para o Himalaia.

O lugar é uma paraíso e foi um dos redutos do movimento hippie no início dos anos 70, antes que o bando fosse expulso do país (baixo a pressão da Embaixada dos EUA – afinal eles protestavam contra a Guerra do Vietnam). Pokhara está na beira do lago Phewa Tal, o segundo maior do Nepal. Visitei uma pequena ilha onde o templo hinduísta Varahi Mandir, dedicado a Vishnu, recebe devotos constantemente. Um festival de cores.


Os devotos cruzam o lago para fazer seus pedidos no templo do lago.

Mas o quero contar agora para você foi a aventura para sair de Pokhara. Uma daquelas que entra em diário de qualquer viajante.

O vôo de volta, pela empresa Buddha Air, está marcado para às 15:50. Chego uma hora antes para descobrir que o avião está atrasado. Enquanto isso, quatro outras linhas aéreas locais( também com nomes peculiares, como Yeti Airlines, o gigante das neves, ou Sita Air, nome de deusa), mandam gente de volta para Kathmandu. Com um nome tão auspicioso como Buddha Air, será que o agente de viagem escolheu a linha errada para mim?

O avião chega finalmente, mas vem com algum problema. O piloto está agachado, olhando um dos pneus do bi-motor de 20 passageiros. E nosso vôo, agora o último, não é chamado. O tempo passa. Metido, vou à luta e consigo alguma informação: um dos freios tem uma pequena falha e eles precisam trazer uma peça sobressalente e um mecânico da capital para que o avião saia. Ele deve chegar às 17 h.

O tempo passa e o tempo fecha. Uma tempestade ameaça cair sobre nossa cabeça. Agora sim, nenhum outro avião vai poder aterrisar. Não tem jeito mesmo. Só amanhã. Mas no dia seguinte eu tenho um vôo cedo para Delhi e não vou conseguir fazer a conexão. Dos 20 passageiros, sete precisam ir para Kathmandu ainda nessa noite. E resolvemos ir por terra. São 200 km, que podem ser cumpridos em 6 horas. Se tudo der certo...


Depois da tempestade, a visão de um dos nevados. Símbolo de que os caminhão irão se abrir?

Ai começa a novela: conseguir uma van, negociar o preço e depois descobrir que precisamos de uma autorização especial para viajar à noite, porque era transporte publico. Duas horas depois, às 19 h, alugamos uma van de um hotel. A placa verde permite transitar sem problema. Somos sete: uma estudante americana e seu namorado da Noruega, um casal de nepaleses residentes na Austrália e uma inglesa que se apaixonou por um médico nepalês. E eu.

E continua a novela de cada um: a inglesa sofre de diabetes e precisa comer. A nepalesa fala com a mãe pelo celular, que não a deixa viajar de noite devido à instabilidade política e um possível ataque maoísta. Eu, que estava com uma bela diarréia, me entupo de banana prata para não sair cagando durante toda a viagem.

A primeira parte transcorreu bem. Pouco trânsito, muitos buracos, mas rodamos 100 km em três horas. Paramos para jantar, pois o motorista não engolia nada desde às 7 da manhã. Eu comi arroz e lentilhas. Vamos ver como meu estômago reage.


Os viajantes que trocaram o avião pela estrada: no alto, o norueguês, a americana, o doutor nepalês e sua companheira inglesa; em baixo, o casal de nepaleses.

A segunda metade, a partir das 22:30, transforma-se em um caos. Pegamos o tal do “Engarrafamento da Noite”. Os caminhões não podem entrar e sair de Kathmandu durante o dia. A estrada de duas pistas estreitas está congestionada, algumas vezes com três veículos tentando subir ou descer. Caminhões estacionados na estrada complicam a situação. Não dá outra: uma tremenda confusão. Num local, perto de uma ponte em curva, tudo está parado. Há dois caminhões que sobem e, do lado contrário, frente a frente, dois caminhões descem. Atrás de cada um, uma meia dúzia de veículos que seguiram seus líderes cegos. Ninguém reage, como se a solução fosse esperar o dia raiar para entender como resolver a equação.

Preocupado em não perder o avião no dia seguinte, saio da van para organizar o trânsito. Meus companheiros não acreditam na cena! Sem apito, mas com a autoridade concedida pelos cabelos brancos, ordeno, com movimentos enfáticos, que caminhões encontrem seu espaço. Fico em frente a uma jamanta intransigente, que pode estragar meu plano. Sinto-me em Tianamen Square. A boa vontade dos motoristas e a peculiaridade da cena acabam em risadas. Uma das filas, a da subida, consegue, lentamente, se movimentar. Minha van passa por mim e eu entro. Missão cumprida. Nisso, até me esqueço que estava com caganeira.

Alcançamos Kathmandu às 2:30 da madrugada. No total, foram 7:30 horas de viagem. Se Omega Megog não me ajudou tanto com Buddha Air, pelo menos abriu os caminhos para chegar a Kathmandu.

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05/04/2008 01:38

Depois que Ngulchu Tulku foi preso, consegui encontrá-lo alguns dias mais tarde em um café no bairro tibetano de Bouda, em Katmandu. Conversamos bastante e o resultado está em uma
entrevista publicada hoje na revista EPOCA. Como a versão em português está na edição online, coloco no blog a tradução em inglês para que ainda mais pessoas possam saber o que acontece aqui nessa parte do mundo.

Below you will find the English translation of an article that was published today in EPOCA, a prestigious weekly magazine in Brazil. As Tibetan protests make the news around the world, we would like to share this unique interview with you.


Ngulchu Tulku, born again to fight


Kathmandu is going through a tense moment, as the Assembly elections are coming up on April 10. During the past two weeks, Nepal’s capital has also been the stage of a number of protests against Chinese policy in Tibet. Nepal shelters over 20,000 Tibetan refugees. After the peaceful Tibetan insurgence on March 10, 1959, thousands of Tibetan monks and lay people flew from Chinese dictatorship. The first groups reached Nepal, crossing the Himalayas, half a century ago. Around the same period, the Dalai Lama, Tibet spiritual and political leader, also found refuge in India.

After Tibet and Dharamsala (place where the Tibetan government in exile is located), Nepal is the main refuge of this ethnical group. Mountain people used to high altitude valleys, the Tibetans are hard workers and strong followers of their Buddhist religion. When they reached Kathmandu’s valley, they came across the village of Boudha, 3 miles away from the capital. Its giant sanctuary was crowned with four pair of Buddha eyes. For practical or superstitious reason, the refugees settled around the giant stupa.


The Boudha stupa: the four pair of Buddha’s eyes reminds us that we need to be attentive.

Today, the Tibetan neighborhood of Boudha is not an isolated village, like a few decades ago. Hundred of stores offer antiques that crossed the border, religious articles for everyday practices and precious tangkhas, paintings that illustrate Buddhist deities. Around the sanctuary, the movement of pilgrims walking and praying (always clockwise) is almost as intense as around the Johkang, Lhasa’s main temple. For a moment, I thought I had returned to the Tibetan capital. I am able to recognize particular odors, such as the smell of the yak butter and the juniper incense and to identify familiar sounds like the mantra “Om Mani Padme Hum,” the language and the music. Here, I meet again the crowds of monks, with their red or orange robes, walking around the streets or coming in and out of monasteries.

Even if everything around me is a distraction to my eyes, I have a clear goal. I want to meet again Ngulchu Tulku, a 29 years old man, with whom I had started a rather unconventional interview a few days ago. Indeed, our conversation had been interrupted abruptly as we left for the Chinese Consulate, where he and some other 80 demonstrators, went to protest. He was arrested, but, like it happened other previous ten times this past two weeks, he was released a few hours later.


Recently, Ngulchu Tulku was detained a dozen times.

The only information I have is that he is at Café Saturday, in Boudha. I ask a shop owner, make my way around the giant Buddhist construction – the four pair of eyes always following me – and finally climb the five floors up to the loft of a building. I reach one of the westerners selected cafés, which stands face to face with the stupa. I recognize Ngulchu. I am happy to see him smiling, without any wound. I ask if he was beaten when he was arrested. “After having been jailed so many times, the policemen know me. At first they would treat me very badly. Now, not so much. I just got a couple of pinches that left marks”, he says.

Ngulchu is always with his cell ready at his ear. He dresses in western clothes and could be mistaken for any young Asian man, avid for more western consumerism. But his second name – Tulku – has a deeper meaning, connected with the essence of Buddhism. He explains that he is the incarnation of Ngulchu Lobsang Choepel, the 10th Panchen Lama’s tutor. Recognized by the Dalai Lama himself as the reincarnation of the teacher of the second Tibetan spiritual authority (the Panchen Lama), Ngulchu started to tell his story. In 1962, the 10th Panchen Lama presented to Mao Tse Tung his famous “70,000 Characters Petition.” The Chinese dictator became furious with the critics to the Communist Party: the long letter mentioned the Tibetan executions immediately after the insurgence of 1959. “To avoid the Panchen Lama to be killed, his tutor declared that he had been the author of the petition”, said Ngulchu, two days ago. “And the tutor – my previous incarnation – was murdered.”

I need to confirm the story that he told me that day. Is Ngulchu really the reincarnation of such an important wise man in the history of Tibet? His colleagues confirm, he retells the same story. I am convinced that nobody would joke with such serious matters. As he finishes telling his story, he concludes: “It is sad that we are refugees, without a land, without a nationality. On the other hand, as Buddhism was expelled from Tibet, important scholars left to all directions and our philosophy is now everywhere in the world. I am very proud to be Tibetan”, he affirms.


Ngulchu Tulku in Boudha: protected by the giant stupa and Buddha’s wisdom.

I direct our conversation to the topic of the second generation of Tibetans, who – like him – where born in exile. “Our parents did not study in schools. They had to learn English to be able to communicate in India, Nepal and around the world. Our generation was born with more opportunities and we received better education. We are more prepared to explain to the world what happens in Tibet”, he argues.

The protests in Nepal started with the news of the demonstrations in Lhasa. The Chinese version of the facts – that the Tibetan had attacked Chinese civilians – left the habitants of Boudha outraged. A few days later, photos of bodies of monks shot – some of those images probably captured by camouflaged cell phones – reached Kathmandu and triggered the reaction of the community. “This is the greatest Tibetan protest in Nepal in the last five decades. Each Tibetan does his share. While elders and adults pray and recite mantras at the temples or at home, we, the young people, use our energy to call the attention of the world.”

Ngulchu explains that along with ten other activists, he started a hunger strike two weeks ago. “On the sixth day, we received a clear message from our leader, the Dalai Lama: we should not continue with the strike”, he says. “We stopped the hunger strike, but maintained the peaceful demonstrations. We never hurt any police officers, we only defend ourselves”, he affirms. Ngulchu and his companions follow the “Middle Path” pledged by the Dalai Lama who considers that Tibet is part of China, but it should be fully autonomous – which it does not happen. “We do not accept that China continues with its policy of repression, killing our brothers and sisters and then blaming our own people. The world needs to know what happens in Tibet – human rights are violated on a daily basis”, tells Ngulchu. “This is the reason of our protests. And we will go on until our voices are heard: today, tomorrow, after tomorrow, next week.”

“We are not against China development. We want better life conditions for Tibet. We want to be part of this process that will benefit our relatives and our native land. The problem is the abuse of power of the Communist Party”, says Ngulchu. “Also, we are not against the Beijing Olympic Games. This will be a great opportunity for China. But we cannot accept that the games happen in a country that does not respect human life. This is against the Olympic principle. The foreign athletes should reconsider their participation. They will be representing their countries, where they are free, but they will be in a nation where freedom is limited.”


Nyima Dolkar and Ngulchu Tulku discuss the strategy for the next protest.

Nyima Dolkar, a 33 years old woman, comes in limping. When she was arrested for the ninth time the Nepalese police kicked her leg. She also shows the purple marks on her right arm. “This time, I remained unconscious for three or four minutes. But I am ready for another protest today”, she says. Ngulchu and Nyima switch from a broken English to the rapid and energetic Tibetan language. They talk about where would the protest-of-the-day take place. “We might meet in front of the United Nations building or a European country embassy, as the European Community supports Tibet. The French and German authorities are sympathetic to our cause”, says Nyima.

I ask them how they feel as they confront one of the largest powers of the world. “China is very powerful. We know that it will be very difficult to win. But we need to continue to fight for freedom. There is no other solution”, says Ngulchu. “I am certain, that at the end, truth will prevail over lies.”

The cell phone rings again. They need to find other companions somewhere in Boudha. I am impressed by the courage of the group. They know that the Nepalese police – under the pressure of the Chinese Embassy – will repress them, that they will be arrested, and suffer bad treatment. Again and again. But, even like this, obsessed by the search for greater freedom for their land, they will repeat their ritual – almost a religious one – one more time. “I am not afraid. I sacrificed my previous life for my country. Why not this time as well?” concludes Ngulchu Tulku.

Translated by Flavia Castro

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02/04/2008 00:00

O texto dos dois posts anteriores sobre Katmandu foram traduzidos para o inglês. Agora o blog Viajologia pode ser considerado realmente internacional.

Below you will find a translation of two stories posted a few days ago, in Portuguese. We thought that the issue was extremely important and we wanted to share it with you.



Protests in Kathmandu - 100 million mantras for Tibet

Kathmandu
– I arrive at the right lodge. The owner of the hotel is Tsering Dolkar, a Tibetan businesswoman. She is told that I am a journalist and invites me to come along for a prayer ceremony the following day. “During the past two weeks, since the tragic events in Tibet, our community in Boudha meets almost every day to pray.”

The community center is full. In the main hall, more than 700 people are repeating mantras. Outside, a similar number sits at a patio. “All Tibetans, anywhere in the world, have the objective to recite 100 million prayers to Tara, a feminine divinity related to both inner and outer peace”, says Ngawang Sangmo, president of the Tibetan Women Association in Nepal. To escape Tibet in 1959, she walked 20 days with her father, all way to Nepal. She was only 10 years old.


In Boudha, the most important Tibetan neighborhood of the Kathmandu Valley, monks pray for World Peace. In the background, a painting of the Potala Palace reminds all of their native land.

“Since March 10, anniversary of the Tibetan rebellion against the Chinese invasion, when thousands of Tibetans were massacred in 1959, we have recited two millions mantras here in Kathmandu. When I ask Ngawang if only prayers can resolve this complex political situation, she answers: “Maybe we cannot see tangible results, but the base of Buddhism is to accumulate merits and search for happiness for all sentient beings, including the Chinese. We also pray for our brothers and sisters in Tibet not to suffer so much.”

The sound of mantras is intense. Inside the hall, the back of the room is full of nuns. Some older women, apart from reciting mantras, move their prayer wheels. Inside them, there are thousands of prayers printed in paper. According to Buddhists, each time the wheel completes a full turn a prayer is made.


A nun and her prayer wheel. During the past two weeks, the attention of the Tibetan community attention is fully focused on the Tibet crisis.

I leave the great hall and see on the wall some photocopies of major articles about the crisis in Lhasa. Tsering Dolkar is seated at a table and receives donations. “An old man, very poor, said he wanted to contribute something and the only bill he had was of 5 Nepalese rupees (US$ 0.08). Yesterday, we also received a donation of 50,000 rupees (US$8,000). People give according to what they can afford”, says Tsering.

During the last days, some dramatic photos, showing the bodies of victims, reached Kathmandu. People become overwhelmed to see the images that show the violence used by the Chinese police. “The Chinese authority cut the water of many monasteries. They also blocked food from getting inside the monasteries and there are already cases of malnutrition”, says Tashi Phuntsok, member of the coordination committee. “We need the world to know that this cultural genocide is happening in the midst of the 21st Century.”


On the right a young monk of the Tibetan region of Ambo Ngapa, has not yet been identified. On the left, Gegam. 40 years old, also from Ambo Ngapa, was murdered with a shot in the breast.

Students don’t use only prayers to pledge for human rights in Tibet

At the Tibetan community center in Boudha, I tell Tsering that I would like to talk to some young people. One of the committee members introduces me to Ngulchu Tulku. He is in a hurry and I decide to follow him. As we walk, I ask the reason of his name Tulku. I know that this title is only given to reincarnations of particular lamas. The 29 years old young man, dressed in western clothes, turns off his cell phone, orders a coke and explains. “Yes. I am the reincarnation of Ngulchu Lobsang Choepel, the 10th Panchen Lama’s tutor”. Ngulchu Tulkus’s father used to live in the Tashilhunpo Monastery in Shigatse. He flew Tibet in 1959 and became the bodyguard of the Dalai Lama. “I was recognized by the Dalai Lama – but the story of Lobsang Choepel, the tutor, is a sad one.” Ngulchu tells me that in 1962, the 10th Panchen Lama presented to Mao Tse Tung his famous “70,000 characters Petition.” The Chinese dictator became furious with the critics to the Communist Party: the long letter mentioned the Tibetan executions early after the 1959 rebellion. “To avoid the assassination of the Panchen Lama, his tutor declared he was the real author of the Petition”, tells Ngulchu. “And so, the tutor – my previous incarnation – was killed.”

His cell phone rings again. We interrupt our conversation. All the coordination for the impromptu operation of today happens through cell phones. “It is time and the bus soon will be here. We’ll resume talking later”, says Ngulchu. Dozens of shaved head monks appear from everywhere. As I look closer, I realize that they are women, nuns. A small bus, with space for 25 passengers, comes with other members of the group. More than 50 people get in. I manage to squeeze myself in a spot by the window. The bus drives through side streets to avoid its passengers to be identified by the police. We make our way through narrows passages until a crumbled bridge and the concern of the driver make us leave the vehicle. We walk some 1500 feet in the dust. Now, there are some eighty demonstrators. Nobody knows where we are going. “There might be an informant among us. That is why we decide the place of the demonstration at the last minute”, affirms Ngulchu.


Between two buses

Two new buses appear. This time I sit close to Dicky Dolma, a young student with a sweet smile. She is 18 and the daughter of a carpet merchant in Patan. Her English is good. “Many Tibetans are dying in our country. That is why we have to do our part. I have been arrested five times already.” I don’t know if I am more impressed by her beauty or her courage and determination.
Since past March 10 (a fatidic date for the Tibetans in 1959,) these demonstrations have occurred frequently in Kathmandu. Demonstrators consider that the only way to call the attention of the public opinion and decision-makers is to go to the UN headquarters, the Chinese Embassy or some other key place. Today – I just found out – they are heading to the Chinese Consulate.

The vehicles unload their passengers who run towards the building. Immediately a policeman appears with a stick in his hands. But he prefers not to act alone. As soon as the students reach the entrance door, yelling “Free Tibet”, they are received by a police troop. The police stop the Tibetans from reaching the gate and start using their long wood sticks.

A second troop comes to reinforce the action. They arrive in a truck. A third one joins in. These are women police, in order to deal with the nuns. The situation heats up. The Tibetans continue to call for freedom in their native country. The police block the way and use the sticks. A siren announces that the police trucks have arrived. The detentions start. The first to be arrested is Ngulchu Tulku. He seems to be known by the Kathmandu police. He has been taken to jail 10 times over this last period.


Ngulchu Tulku, the reincarnation of the 10th Panchen Lama, is arrested by the police.

The screaming increases. The nuns throw themselves on the ground, grabbing the legs of students or monks that are being detained to prevent them to be pulled away. The guards try to unlock the human chain and push the victims harder. They manage to separate the group and surround a dozen demonstrators between the police truck and the consulate wall. The young people are not fighting back. Concerned by the presence of reporters and their cameras, the policemen avoid extreme violence, but some get agitated and push too hard. I feel that, with my white hair and western look, I am safe. At worst I get a couple of blows. But an Indian photographer, with a shaved head, got mistaken for a monk and was punched from the back right in his balls.

Dicky Dolma, who has remained protected by the group, is finally caught by the police. She throws herself on the ground crying and her companions wrap themselves in her legs. But force wins and she is carried away.


Dolma, the young 18 years old student that I met in the bus is also arrested. This same image was filmed and broadcast by CNN.

In just 20 minutes, four police trucks are filled with Tibetans. No one in red robes was left on the street. Two blue jacket UN observers from the UNCHR (the agency that supports refugees) take note of the occurrence. One of them goes to the police command to check on the condition of the detained people and to give some treatment to the ones who need it. It is critical to count all of them, as the Nepalese government, under the pressure of China, has threatened to deport some of the demonstrators – which is considered, in the case of refugees, a crime against human rights.


Monks leave in police trucks but continue pledging for freedom in Tibet.

As all this happened, I was unable to conclude my conversation with Ngulchu Tulku. I hope that like in previous days, he will be released. Obsessed by his ideal, he will certainly participate in another demonstration against Chinese policy in Tibet. Even if Ngulchu could be mistaken for any Asian young man, ready to join the western world of consumers, something in him is quite different. Indeed, in his past life, he was the teacher of the second spiritual authority of Tibet.

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01/04/2008 00:00
Manifestantes são presos em Katmandu

Em Katmandu acompanhei uma manifestação (veja post abaixo) contra a ocupação chinesa no Tibete. Além das fotos, fiz alguns vídeos.

Abaixo, você acompanha um pouco do que acontece no centro comunitario budista. Cerca de 1.500 laicos e monges entoam mantras para pedir pela paz por seus irmãos tibetanos.



Monges unem-se aos jovens tibetanos para uma manifestação em frente ao Consulado Chinês em Katmandu. Os policiais nepaleses começam a reprimir a manifestação. Todos são presos:




Depois de presos, os jovens e os monges são levados em camburão. O jovem com quem conversei, Ngulchu Tulku, já foi preso dez vezes nos últimos tempos.

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Haroldo Castro

Haroldo Castro possui três paixões: contar estórias com fotos e crônicas, estar na natureza e viajar intensamente. Criou o conceito de Viajologia, que reconhece a viagem como uma escola dinâmica. Tem mais de 30 anos de experiência como fotógrafo, jornalista, diretor de documentários e estrategista de comunicação. Morou no Brasil, na França e nos Estados Unidos; trabalha em quatro idiomas e conhece mais de 130 países.

> O estrategista da natureza

 
 
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