29/06/2007 06:25
Jalman Meadows, Área Protegida Khan Khentii – ESPAÇO MONGOL

Passei três dias fora da capital, engolido pela imensidão das planícies e montanhas da Mongólia. É um outro mundo! Mesmo se fiquei apenas duas noites no interior, voltar à Ulaanbaatar (UB) e ver prédios e carros, ouvir buzinas e sentir a poluição do ar foi um tremendo choque.

Acordei ontem e hoje com os cantos dos passarinhos. Como estamos a mais de 48º graus norte de latitude, o sol nasce bem cedo, lá pelas 4:30 da manhã; às 6 h a luz é muito forte e pede um par de óculos escuros. Ao abrir a porta, meus olhos davam de cara com uma vasta planície ondulada, em vários tons de ocre claro. Graças às chuvas que caíram na última semana, brotavam também algumas pinceladas aleatórias de grama mais verde. Ao fundo, montanhas baixas e onduladas quebravam a monotonia do horizonte.

Essa sensação de espaço – de grandes espaços – é a marca da Mongólia. Cerca de 40% da população mongol (mais de um milhão de pessoas) ainda vive de forma tradicional, como nômade. Não desprezam o que a capital UB propõe, mas todos têm uma paixão pela vastidão que a natureza oferece.



Habitação nômade no vale do rio Tuul.

Para chegar até o bosque de Jalman, dentro da Área Protegida Khan Khentii, seguimos o rio Tuul, o mesmo que atravessa a capital. Quando deixamos o asfalto, as edificações de concreto foram substituídas pelas “gers”, a tradicional cabana nômade. Esses pontos brancos e redondos já haviam chamado minha atenção quando eu sobrevoara o país. Mas agora eles estavam ali ao lado, com gente e animais ao redor, sua forma harmoniosa pedindo para ser fotografada.



Como passatempo, uma menina nômade tenta agarrar gafanhotos, que abundam no verão.

A estrutura interior da “ger” é de madeira e sua parede circular é coberta for um feltro grosso, confeccionado de lã de ovelha prensado. Moradia dos nômades tanto no verão como no inverno, a “ger” passou a prova do tempo. Frio não entra, mesmo quando está –30º C lá fora, e é fresca durante os dias de calor. A cabana é totalmente desmontável e um carro de boi (ou carro de camelo ou ainda carro de iaque) transporta o pacote de 250 quilos. A “ger” é remontada em menos de uma hora. A porta, geralmente decorada, está sempre voltada ao sul, possibilitando a entrada de mais luz. Fica assim protegida do vento norte que vem da Sibéria.

Para entender mais o que é uma “ger”, aqui vão algumas fotos. Enquanto isso, preciso arrumar de novo minha bagagem pois parto amanhã cedo para o deserto de Gobi...



Alexander Luvsandugar mostra a coleção de medalhas da família que ele guarda no interior de sua “ger”.

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27/06/2007 00:00
Ulaanbaatar - Fotos de Gandan

Enquanto viajo, envio algumas fotos do monasterio de Gandan.


Um jovem monje saindo de seu curso matutino.


Dois lamas anciões discutem no pátio do monastério.

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26/06/2007 11:43
Ulaanbaatar – MONASTERIO BUDISTA

Uma das reportagens que estou preparando é sobre o renascimento do budismo tibetano na Mongólia. E para isso preciso de fotos, muitas fotos. Hoje, apesar da chuvinha fina e do céu cinza, resolvi ir ao monastério Gandan Tegchenling, que está situado, desde 1853, no centro da capital. O complexo de Gandan (até mesmo os mongóis preferem abreviar o nome) possui dez templos e quase 900 monges.

Quando entrei no pátio, meus olhos não pararam de seguir os monges e suas magníficas roupas amarelas e vermelhas. Uma delícia fotografar a criançada de 10 ou 12 anos, todos de cabeça raspada e com suas vestes chamativas. Entrei na escola, consegui não interromper a aula e continuei a “trabalhar” a cor vermelha.



A surpresa estava mesmo dentro do edifício principal Migjed Janraisig, que parecia ser de três ou quatro andares. Quando entrei tomei um tremendo susto pois me havia esquecido que o alto prédio guardava uma gigantesca estátua do Buda da Compaixão, com 26,5 metros de altura. A estátua original, construída em 1911, foi destruída pelos soviéticos em 1938, quando os stalinistas exterminaram cerca de 30 mil devotos e sacerdotes e destruíram centenas de templos e monastérios (os números variam entre 400 e 900). O novo Buda (de cobre e coberto de ouro) foi inaugurada em 1996.

Depois de fotografar a estátua, resolvi acompanhar o ritual dos budistas: dei a volta ao redor do Buda, fazendo rodar mais de uma centena de moinhos de reza. A cada giro é como se uma oração fosse realizada! Acho que estou com um bom crédito para os próximos dias de viagem que vou fazer no interior.

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25/06/2007 12:08
Ulaanbaatar, Mongolia – CHEGADA

É a minha primeira visita à Mongólia. Por isso, durante o jantar com meu amigo sueco Jan Wigsten e três conservacionistas norte-americanos fizemos um brinde para celebrar minha chegada a meu 134º país.

O dia foi curto. Logística de viajante: definir itinerário das viagens ao interior, trocar dólares, comprar mantimentos e conseguir um celular local. Estou hospedado em um apartamento emprestado no centro da cidade. Na época dos soviéticos era usado pelos oficiais do "KGB" da Mongólia. Em 1991, foram entregues aos antigos dissidentes que retornaram ao país.

Estamos em pleno verão e a temperatura na capital beirou apenas os 22º C. De fato, Ulaanbaatar (também conhecida por Ulan Bator), a 1.400 metros de altitude, é a capital com a temperatura média anual mais baixa no mundo, perto de -2º C. Como diz Jan “não estamos no norte da China, mas ao sul – e bem pertinho – da Sibéria”.

Existe aqui uma mistura complexa entre o antigo e o moderno, o tradicional e a era da globalização. Na praça principal Sukhbaatar, em frente ao Palácio do Governo, seis ou sete “ger” (a tradicional cabana redonda dos nômades) davam um colorido excepcional ao ambiente austero. Vi sair de uma das cabanas, guardada por um risonho guerreiro vestido como se estivesse no século 13, um monge com suas roupas tradicionais que falava no celular e uma bela jovem de mini-saia e barriguinha de fora, como se estivesse em Ipanema...



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24/06/2007 10:53
Beijing - MERCADOS

Grande parte das roupas e aparelhos consumidos nos Estados Unidos são “Made in China”. É a classe média (e média baixa) norte-americana, que compra uma calça jeans nos Wal Marts da vida por 15 ou 20 dólares, que se beneficia da mão de obra barata chinesa. Mas e aqui, como é que fica? Esses produtos globais estão disponíveis?

Fui a três mercados hoje: o das Pérolas, o Fashion e o Russo. Este último é reservado para os russos que fazem suas compras em Beijing. Todas as vendedoras falam russo e os cartazes estão em cirílico e em chinês. Vendem qualquer bugiganga eletrônica – de helicóptero com controle remoto a massageador – e roupas de cores bem cafonas.

O mercado Fashion é mais para o gosto ocidental. Oferece bolsas Gucci a 8 reais e camisas de marca (Tommy Hilfiger ou J. Crew) a 10. São produtos com pequenos defeitos ou sobras – legais ou não – do que não foi exportado. CDs de qualquer tipo de música, novos e selados, não valem mais do que 20 Yuan, 5 reais. Com exceção de um pacote de 10 DVDs virgens, consegui sair do mercado sem aumentar o volume de minha mala. Afinal, a viagem à Mongólia ainda nem começou.

Para compensar as cinco horas da caminhada de ontem e as quatro de mercado de hoje, me ofereci uma massagem nos pés. Foi uma hora de bom trato. As delicadas mãos de Li Qiang trabalharam a sola, o calcanhar e cada um dos dez dedinhos. O gran final foi nas duas batatas das pernas. Quase que adormeci de tão gostoso que estava... Levitei ainda mais quando fui pagar a conta: apenas 10 reais.


Li Qiang massageia os pés cansados desse blogueiro... Será que ela colocou a máscara só por causa do meu chulé?

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23/06/2007 21:46
Beijing – CIDADE PROIBIDA

“O único lugar que talvez não mudou desde sua primeira visita a Beijing há 20 anos é a Cidade Proibida”, me avisou Tanya. “Todo o resto você não vai reconhecer”.

Mesmo falando apenas duas palavras de chinês (bom dia e obrigado), fui de metrô. Limpo, mas cheio. Nas paredes, propagandas de Ipod, Água Mineral 5100 das montanhas do Tibet e mulheres sensuais vendendo qualquer coisa. E a moçada dentro do metrô – de celular e fone de ouvido – seguindo à risca essa entrada no mundo do consumismo.

Passei cinco horas caminhando dentro da
Cidade Proibida. Impressiona o que as cortes das dinastias Ming e Qing realizaram nas artes e na arquitetura. As construções levam nomes espetaculares: Palácio da Tranqüilidade Terrestre, Portão da Unidade Celestial ou Hall da Supremacia Imperial. Só para lembrar: a Cidade Proibida foi concluída em 1420, 80 anos da chegada de Cabral no Brasil.

Os chineses falam alto, são expressivos e não são nada tímidos. Duas jovens turistas de Hong Kong puxaram papo e pediram que eu as fotografasse. Um casal de Beijing com filho no colo queria saber se eu estava gostando da visita. Um estudante de marketing queria treinar seu espanhol comigo. Os poucos estrangeiros se perdem nesse oceano de turismo doméstico. Calculei que para cada visitante de fora havia pelo menos uns 20 ou 30 locais. E todos pagam o mesmo preço de entrada: 60 Yuan, cerca de 15 reais.

O mormaço de verão em Beijing é forte. Bebi muitas garrafinhas de água mineral. Comprei uma delas num quiosque ao lado de um palácio. Reconheci um logo: era do Starbucks Café. Não acreditei: as mudanças chegaram até mesmo dentro da Cidade Proibida!



Um menino de Beijing, atendendo a pedido de seu pai, faz uma saudação, com suas duas mãozinhas juntas, frente à uma pagoda de ouro da dinastia Qing.

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22/06/2007 23:14
Montanhas perto de Beijing

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22/06/2007 08:39
Beijing, China – TELEFONE CELULAR

Cheguei em Beijing e estou hospedado na casa de uma amiga nicaragüense, Tanya Gutierrez, e de seu marido Tim, jornalista. “Como você não vai aprender mandarim em três dias, o melhor é comprar um celular”, me disse Tanya. “Assim, se você se perder, eu explico ao taxista como ele traz você de volta para casa”. Concordei e saímos para comprar um pré-pago.

Depois de confirmar que o aparelho também pode ser usado na Mongólia, pedi o mais barato. O vendedor trouxe um Motorola por 288 Yuan (72 reais). Mais 50 Yuan (13 reais) para crédito. “E o número? Posso escolher?” perguntei.

Eu sabia que os chineses gostavam de números. Mas aqui numerologia é algo sagrado. O vendedor Wang Jian me apresentou uma longa lista. Os números terminados em 4 são os mais baratos, valem apenas 50 Yuan. Razão: o som da palavra “quatro” em chinês é parecido com “morte”. Os terminados em 5 sobem para 70 Yuan. No outro extremo estão os números com final 8 e 9, os mais auspiciosos.

Wang Jian deu mais exemplos. “Esse 99907 vale 300 Yuan; o 2929 custa 600. E todos desta página, como o 19119 e o 9000, valem entre 700 e 800 Yuan”. Uau, 100 dólares apenas para ter um número de sorte? “Isso não é nada”, riu Tanya. “Os chineses são jogadores inveterados e muito supersticiosos. Em Hong Kong algumas placas de carro chegam a valer milhares de dólares!”

Pedi um que terminasse em 4 mesmo, mas Wang Jian teve pena e trouxe um número diferente, final 753. Gostei. Eu não sou supersticioso, mas acredito em bruxas, sim...

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22/06/2007 06:17
No ar – POLO NORTE

O vôo direto da United ligando as capitais norte-americana e chinesa existe somente há dois meses. Quando comprei minha passagem, essa linha era um mero acordo bi-nacional. Se tivesse voado via Califórnia, a viagem teria levado quase 20 horas, contando a conexão. Esse vôo non-stop foi de apenas 13 horas.

Acompanhei o trajeto pelo mapa do monitor. Não tomamos rumo Oeste, como eu teria imaginado. Desde o início, a direção foi o Pólo Norte. Quando passamos em cima do Pólo não resisti e tirei a primeira foto da jornada. Não pela janela, mas do mapinha colorido.



Ao contrário do que acontece no Brasil, hoje é o dia mais longo nessa parte do mundo. E aqui em cima do Pólo Norte, chegamos ao extremo. Durante a viagem a 33 mil pés o sol brilhou do meio dia até às 13 h do dia seguinte. O famoso sol da meia noite! Combinou bem com uma das minhas leituras: um texto sobre a vida dos esquimós. Abri a janela um par de vezes, mas só vi nuvens cobrindo a calota polar.

Depois do Ártico, sobrevoamos a Sibéria e a Mongólia. Passamos em cima de Ulaanbaatar, meu destino final. Se olhar em um mapa-múndi, você vai achar estranho essa rota, mas é o caminho mais curto. Bem que minha professora me dizia que os pólos do planeta são achatados…

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20/06/2007 17:20
Washington, DC, EUA – MALAS PRONTAS

Para celebrar o solstício (de verão no hemisfério norte e de inverno no sul), vamos começar hoje uma grande viagem pela Ásia. Faltam poucas horas para o embarque no vôo direto de Washington à Beijing. Destino final: Ulaanbaatar, capital da Mongólia.

Durante este próximo mês, visitaremos parques nacionais deslumbrantes na terra do antigo conquistador Gengis Khan, participaremos juntos da festa mais importante do país – o festival Naadam – e conheceremos um pouco mais a sociedade mongol, um país que se abre agora ao mundo.

Ontem, aqui em Washington, ponto de partida dessa jornada, fiz um excelente contato. Me encontrei com um monge budista norte-americano que mora na Mongólia. Konchog Norbu apóia um projeto de reconstrução de um monastério no
deserto de Gobi, perto da fronteira com a China. Os mongóis ficaram sob domínio comunista da ex-União Soviética entre 1924 a 1990. Cerca de 400 monastérios foram destruídos durante esse período. Apenas três sobreviveram e Khamariin Khiid é um deles. Konchog me convidou para visitar o monastério na semana que vem.

Hoje recebi um email de meu amigo sueco Jan Wigsten, que trabalha com ecoturismo. A idéia é irmos juntos à reserva natural Ikh Nart, para tentar fotografar o carneiro selvagem Argali. O bicho pesa mais que um ser humano (uns 150 quilos) e seus chifres, em forma de saca-rolha, chegam a quase dois metros. A logística para essas viagens ao interior do país não é nada simples, mas não posso perder essa oportunidade!

Se alguém tiver algum conhecido ou amigo em UB (Ulaanbaatar), me avise. Todas as dicas são bem-vindas. Então, embarcamos juntos nessa viagem?

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20/06/2007 16:39
Filmando as cachoeiras de Kaieteur, na Guiana




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Haroldo Castro

Haroldo Castro possui três paixões: contar estórias com fotos e crônicas, estar na natureza e viajar intensamente. Criou o conceito de Viajologia, que reconhece a viagem como uma escola dinâmica. Tem mais de 30 anos de experiência como fotógrafo, jornalista, diretor de documentários e estrategista de comunicação. Morou no Brasil, na França e nos Estados Unidos; trabalha em quatro idiomas e conhece mais de 130 países.

> O estrategista da natureza

 
 
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