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08/07/2007 23:47
Ulaanbaatar – Falta tempo
Cheguei em UB, depois de mais uma viagem ao interior. Preciso hoje organizar meu próximo itinerário e me dedicar a alguns afazeres domésticos, como lavar roupa ou ir ao supermercado. Nada glamoroso, mas bem necessário pois minhas roupas estão mais pesadas de tanto pó e eu mais leve de não ter muito tempo para comer. Depois de 15 dias de Mongólia, a saúde continua excelente! (toc, toc, toc – bato três vezes na madeira).
Estou numa dúvida cruel agora: escrever mais uma estorinha para vocês ou ir para o estádio ver como andam os preparativos para o Naadam – a grande festa nacional da Mongólia que vai acontecer nos dias 11 e 12 de julho. O tempo é pouco para tanta coisa!!!
Uma das crônicas que eu preciso compartilhar com vocês é sobre minha visita à Reserva Natural Ikh Nart, no Gobi. Passei dois dias lá tentando fotografar argalis, o carneiro selvagem. Em busca do bicho, andei dezenas de quilômetros, entre pedras e deserto, em companhia de Amgaa, um biólogo mongol, que é a autoridade sobre o assunto.
A reserva fica num pedaço de Gobi que tem muita pedra e as formações rochosas são tão fascinantes como o argali. Aliás, ele só vive nessa região porque usa as rocas como abrigo e refúgio. Até os argalis precisam de uma sombra!
São tantas imagens e tantos gigas que também preciso de mais tempo para processar o material fotográfico. Aqui vai uma das fotos de um argali em Ikh Nart que já consegui processar. Um gostinho de trailer...

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07/07/2007 00:00
Khamaryn Khiid – Shambala
Hoje é um dia especial, 07-07-07. Para celebrar mais os números e a magia do que as palavras, vamos hoje à uma sessão visual.
Tenho tantas imagens do monastério de Khamaryn Khiid que resolvi selecionar algumas adicionais. Para quem não leu o texto de ontem, dê uma olhadinha abaixo, para poder entender melhor o contexto. Começo com o final da crônica de ontem: as fotos do pôr do sol e do nascer da lua no Gobi. As formas das estupas foram perfeitas para a ocasião.
 Pôr do sol no jardim de estupas de Shambala.
 Uma hora mais tarde, outro momento mágico: o nascer da lua atrás de uma estupa.
O dia com Iderbat foi fascinante. O pequeno monge mora no templo há um ano e seus pais e irmã vivem em um vilarejo vizinho, a 30 km. O budismo está fortemente embutido na família pois seu avó Buyantogtoh, hoje com 59 anos, ajudou a reconstruir o monastério na década dos noventa.
 O Pequeno Buda Iderbat dentro de um templo em Shambala.
No centro da mandala de Shambala, os fiéis deitam no chão para receber a boa energia do lugar. Os mongóis, talvez pela sua alma shamânica, são extremamente ligados aos fenômenos da natureza e aos elementos.
 Uma jovem de Ulaanbaatar não hesita em se jogar no chão de pedrinhas, no centro de Shambala, para receber as vibrações do lugar sagrado.
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06/07/2007 04:01
Khamaryn Khiid – O Pequeno Buda
Abro a portinha da ger e me deparo com o infinito do Gobi. Aproveito a luz das seis da manhã para ir à Khamaryn Khiid, o monastério das arcas secretas. Os dois templos, vazios e silenciosos, estão banhados pela cor quente matutina. As duas edificações possuem tamanhos semelhantes e uma forma quase cúbica. Entretanto, suas funções são diferentes. O templo da esquerda simboliza a escola Vermelha do budismo tibetano e é mais apropriado para meditações; o da direita, da escola Amarela, é o recinto para cânticos e benções. Danzan Rabjaa gostava de provocar os adeptos das duas escolas dizendo que ambas linhas complementavam uma à outra.
Pontos dourados surgem na palidez do deserto. São os monges que saem de suas gers, para realizar o ritual quotidiano de cantos. Os visitantes mongóis afloram e a cerimônia começa com trinta fiéis. Participo e tenho a permissão de fotografar. Faço com muito respeito e discrição.
 Durante a cerimônia, lama Dosh Tsend recita preces em tibetano, escritas há dois séculos. Esses textos (sutras) foram encontrados dentro das arcas exumadas.
No final, me apresento ao lama Dosh Tsend, encarregado do monastério. Menciono o nome de Konchog Norbu, o monge norte-americano que encontrei em Washington e que vive na Mongólia há quase dois anos. O sorriso do lama vem com um sabor de aprovação e suas explicações são ainda mais generosas.
Em Khamaryn Khiid viviam 500 monges em 1830, hoje apenas 11. Um dos mais jovens é Iderbat Sugardoch, de 10 anos. Lama Dosh determina que a missão do pequeno monge é nos acompanhar. Nossa primeira parada é no Owoo dos Seios. Owoo é um monte de pedras sagradas, ao qual todo passante contribui com uma rocha e dá três voltas ao redor, no sentido horário, fazendo pedidos. Nosso motorista está pronto para iniciar seu ritual, mas o pequeno monge explica que apenas mulheres podem reverenciar o Owoo dos Seios, de preferência aspergindo os dois montes de pedras com gotas de leite.
 Buyantogtoh, avô do pequeno monge Iderbat e também lama em Khamaryn, ajudou a reconstruir o Owoo dos Seios.
Danzan Rabjaa desenhou um jardim de estupas – edificações cônicas que simbolizam a mente divina – a 2,5 km do monastério. Shambala foi totalmente destruído em 1938, mas hoje ganhou uma nova reencarnação. Do alto de um morro, Iderbat mostra, com gestos e poucas palavras, a enorme mandala quadrada. Cada quadrante contem 27 estupas, de três tamanhos diferentes. No total são 108, perfazendo o número sagrado do Budismo.
 O Pequeno Buda Iderbat em um dos quadrantes de estupas de Shambala.
Vejo que, no centro da mandala, dezenas de visitantes locais estão deitados no chão, braços e pernas abertas. É um centro de energia e os mongóis, tão místicos como os brasileiros, não perdem a oportunidade para receber boas vibrações e descarregar as negativas. Os homens até tiram a camisa para estar ainda mais em contato com o Govi. A espiritualidade, de braço dado com o misticismo, renasce na Mongólia.
Um quilômetro a mais de deserto e chegamos a uma pequena formação rochosa. Na encosta, existem vários buracos. São cavernas utilizadas pelos monges de Khamaryn para longas meditações. Danzan passou vários períodos em uma delas, apenas com a imensidão do deserto à sua frente.
Enquanto espero o pôr do sol, medito sobre o dia. Embora extenuante por causa do calor, sinto que essa jornada em Khamaryn deixa marcas profundas em mim. Quem sabe eu também não desenterrei alguma arca perdida lá dentro do minha alma...
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05/07/2007 11:26
Sainshad – O Segredo das 64 Arcas
Estou no deserto de Gobi, na província de Dornogobi, sul da Mongólia, perto da fronteira com a China. Fiz 500 km de estrada para visitar um monastério chamado Khamaryn Khid e para ouvir uma estória fascinante, que compartilho agora com vocês.
Khamaryn foi criado em 1822 por um extravagante homem santo, Danzan Rabjaa, considerado como o Quinto Lama do Gobi, um título equivalente ao do Dalai Lama no Tibete. Danzan não era um místico qualquer, tinha uma alma holística. Poeta, monge budista, estudioso das escrituras tibetanas, admirador de mulheres, consumidor de vodka e praticante de Tantra, Danzan construiu um teatro no meio do deserto onde ele e seu grupo faziam performances para uma platéia de pastores montados a camelo. Corte para um século depois. Em 1938, sob a garra soviética, a Mongólia foi vítima de uma incomparável perseguição religiosa. Cerca de 700 templos budistas foram destruídos e mais de 28.000 pessoas desapareceram. Os monges de Khamaryn Khiid sabiam que as tropas chegariam no local em pouco tempo, mesmo se estavam no meio do nada. Lama Tuduv, responsável pelos pertences do monastério, deu então início a uma nobre e perigosa missão: colocar todas as obras de arte, objetos religiosos e manuscritos sagrados dentro de arcas de madeira. Cada noite, sem ser visto por ninguém, ele carregava sozinho uma pesada arca e a enterrava nas areias do deserto. Melhor estar baixo a aridez do Gobi do que cair nas mãos da Unidade 17 do Exército Vermelho.
Lama Tuduv conseguiu enterrar 64 arcas. Se tivesse mais tempo, teria logrado salvar outras 80 caixas contendo estátuas, livros, pinturas e objetos pessoais do santo Rabjaa. Mas a ordem de invasão ao monastério foi efetivada, 160 monges foram fuzilados, outros 300 foram presos e o monastério foi totalmente arrasado. Não sobrou nada – a não ser as 64 arcas escondidas...
Altangerel Zundui, neto de Lama Tuduv e o único a saber onde estavam as arcas, recebera de seu avô o sagrado encargo de, um dia, desenterrar o conteúdo. Com a abertura política em 1990 e a conseqüente saída dos soviéticos, Altangerel considerou que o momento era oportuno. Foi ao deserto e desenterrou 32 das arcas, reacendendo assim a chama de veneração à Danzan Rabjaa. Naquele mesmo ano, dois templos do monastério em ruínas começaram a ser reconstruídos e o conteúdo de oito caixas retornou ao seu lugar de origem. As outras 24 estão hoje em um pequeno museu em Sainshad, cujo curador é o próprio Altangerel.
Consegui o número do celular de Altangerel e uma hora mais tarde nos encontramos no museu. “Desenterrei apenas a metade do conteúdo pois este museu não tem segurança e já não tem espaço”, explica. “Existem ainda 28 arcas sob as areias, pois quatro foram encontradas por um pastor em 1969, que entregou infelizmente o conteúdo à polícia soviética.” O governo da província de Dornogovi, atento à adoração que a população local tem por Danzan, contribuiu com 200 milhões de tugriks (cerca de 400 mil reais) para a construção de um novo museu. Este, em obras sob a supervisão de Altangerel, deve ser inaugurado em 2008. Logo as restantes 28 arcas voltarão a ver a luz do dia.
Altangerel, hoje com 47 anos, não se sente nem herói, nem santo. Mas confessa que está feliz pois não vive mais com o medo e a angústia do passado. “O mais importante é que realizei o que meu avô me havia instruído”.
 Altangerel abre uma das arcas e mostra um objeto decorativo de um dos templos de Khamaryn khiid, peça que deve ter pelo menos 150 anos.
 Altangerel, no praça principal de Sainshad, junto à estátua de Danzan Rabjaa, venerado cada vez mais pela população local do Gobi.
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04/07/2007 12:24
Sainshad – Entrada no Gobi
Passei cinco dias no deserto de Gobi. Consegui excelentes fotos e tenho algumas boas estórias para contar.
Melhor começar com o deserto mesmo. Ao sair da capital deixamos bosques e árvores para trás e caímos numa infinita estepe ondulada. Nessa época de chuva, a cor predominante é o verde, mesmo se pálido, com um amarelo de fundo sempre presente.

Na metade do caminho, depois de ter rodado 240 km, termina o conforto do asfalto. E o verde da paisagem também. O percurso passa a ser mais penoso, por causa do calor de meio-dia e da constante poeira. Entramos no Gobi, um deserto de areia dura e compacta, repleto de pedrinhas.
Durante quase todo o trajeto, seguimos ao lado da ferrovia Trans-Mongólia. O movimento de trens é intenso e às 13 horas, quando paramos em Shobii Govi, o Expresso Ulaanbaatar-Pequim nos alcança em alta velocidade. Os povoados das estações são tristes: poluição de todo tipo, favelas de “gers” (cabana tradicional) e até uma mina de carvão da era soviética. Dúzias de edifícios, cada um com 50 ou 100 apartamentos fantasmas, jazem sem vida: os russos saíram deixando esqueletos de concreto que apodreceram nessas últimas duas décadas.
Olho para qualquer direção e o horizonte é uma linha quase reta. Difícil acreditar aqui que o mundo não é plano. Não vejo nenhum relevo. Os 37º C provocam as primeiras miragens e a linha de postes que segue a ferrovia parece estar flutuando. Embalado pelo mormaço, quase adormeço. Mas meus olhos acordam ao avistar um casal de gruas. Elas haviam usado um dos milhares de postes para construir seu ninho, mas ciscavam o deserto.

Dez horas de estrada e chegamos ao destino: um acampamento de “gers”, cada uma montada como uma pequena geladeira e um ventilador, um luxo não esperado no meio do Gobi. Uma bela ducha vingou o calor do dia.
Mas a maior recompensa surge ao pôr-do-sol – aliás uns 20 minutos depois do sol ter se escondido. Uma banda amarela se assenta no horizonte, baixo um profundo céu azul. E entre essas duas cores, vejo algo inacreditável. Depois de ter participado de homéricas discussões entre viajólogos se existia ou não, ali está uma faixa de céu verde! É uma longa zona esmeralda, do tamanho de duas luas cheias, unindo o dourado ao celeste.
Dizem que esse fenômeno só acontece em lugares muito especiais. O Gobi começa a mostrar um pouco de sua magia...
Amanhã, não percam: As 64 arcas secretas do monastério de Khamariin Khiid.
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02/07/2007 00:00
Jalman Meadows - FOTO
Enquanto viajo no deserto de Gobi, envio mais uma foto. O vale do rio Tuul recebe muitos nômades durante o verão, mas suas habitações estão bem espalhadas. 
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01/07/2007 00:00
Jalman Meadows, Área Protegida Khan Khentii – CAVALOS 2
A experiência de andar a cavalo foi tão saudável que aceitei no dia seguinte fazer um novo passeio. Este foi bem mais profissional. Estava acompanhado por um casal de suecos que vão à hípica duas vezes por semana e por Alexander Luvsandugar, um nômade que vive no verão perto do acampamento onde estávamos.
 Com Alexander como guia, percorremos planícies e atravessamos bosques.
Durante três horas percorremos mais de 10 km e passamos por paisagens deslumbrantes. Não havia ninguém a milhas de distância. No final do percurso, chegamos na “ger” de Alexander. Sua esposa Batdavaa nos convidou a entrar na cabana. Vegetariano há 29 anos, eu sabia que esse momento seria delicado, uma vez que os mongóis comem muita carne. Como faria eu para sair dessa?
Para minha surpresa, Batdavaa nos recebeu com um banquete lácteo: manteiga, queijo, iogurte, iogurte seco e chá com leite salgado. Até mesmo o pão era preparado por ela. Não precisei inventar nenhuma desculpa e devorei todo o cardápio oferecido, baixo os sorrisos da dona de casa.
Como estava no fim da tarde, Batdavaa e Alexander ainda tinham algumas tarefas por realizar. Ela foi tirar leite das vacas e ele trazer o rebanho ao curral. Tudo com a ajuda de seus cinco filhos e sob os olhares interessados dos visitantes.
Foi uma tarde inesquecível, com mais de 500 cliques da família Luvsandugar e de seu rebanho. A verdade é que, se não estivesse a cavalo, eu não teria vivido tudo isso. Principalmente quando se viaja, sempre é bom ir além de seus próprios limites!
 Batdavaa ordenha suas vacas e toda a produção de leite é transformada por ela em queijo, iogurte e manteiga.
 Alexander tem grande orgulho de seu iaque “cara branca”.
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30/06/2007 00:00
Jalman Meadows, Área Protegida Khan Khentii – CAVALOS
O animal mais importante na Mongólia é o cavalo. Foi chave nas conquistas de Chinggis Khaan (Gengis Khan) no século 13 e seus incansáveis corcéis chegaram até a Europa. O cavalo é o principal meio de transporte para os nômades mongóis, mais de um milhão de pessoas.
Existem quase 9 milhões de eqüinos no país, mais de três para cada humano. Crianças começam a montar com três anos. Uma das competições no festival nacional Naadam (em breve!) é a corrida de cavalos. Dizem que um cavalo é tão inteligente que leva seu dono, mesmo se totalmente bêbado, de volta para casa. Chega de exemplos, vocês já entenderam: é o animal nacional, está no DNA do país!
 Existem mais de três cavalos para cada pessoa na Mongólia
Por isso, quando cheguei em Jalman Meadows, me ofereceram imediatamente um passeio a cavalo. Traumatizado com minha última aventura eqüestre na Suazilândia há 12 anos (tinha caído na besteira de aceitar a proposta de minha filha Mayra de fazer um safári a cavalo e o bicho quase me leva ao chão), eu havia prometido que jamais montaria novamente um outro animal de quatro patas.
Tentei negociar, dizendo que eu era um bom caminhante. O argumento contrário foi mais forte: havia que cruzar um riacho de água fria. Deixei de frescura e acabei aceitando. Afinal, não andar a cavalo na Mongólia poderia arruinar minha reputação!
No final, o passeio foi maravilhoso. Os animais aqui são pequenos, mas fortes e vigorosos. Atravessamos rios, subimos encostas, descemos ribanceiras e até tomamos chuva. Meu corcel malhado se portou maravilhosamente bem. Eu (e minhas nádegas) também. Passei a ter um trauma a menos, uma aventura a mais!
 Meu guia adorou a chuva que nos pegou de surpresa
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| Haroldo Castro |
Haroldo Castro possui três paixões: contar estórias com fotos e crônicas, estar na natureza e viajar intensamente. Criou o conceito de Viajologia, que reconhece a viagem como uma escola dinâmica. Tem mais de 30 anos de experiência como fotógrafo, jornalista, diretor de documentários e estrategista de comunicação. Morou no Brasil, na França e nos Estados Unidos; trabalha em quatro idiomas e conhece mais de 130 países.
> O estrategista da natureza |
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