18/07/2007 00:00
Viagem ao interior

Gente, estou na minha ultima semana de viagem a Mongólia. Fui para o interior fazer um trekking de camelo e visitar o mais importante monastério budista, Erdene Zuu. Voltarei dia 21 com mais notícias e fotos.

Como algumas pessoas me pediram para colocar uma fotozinha minha, deixo aqui essa imagem de um "owoo". O "owoo" é um monte de pedras, geralmente no topo de um morro, onde os budistas deixam três pedras, dão três voltas e pedem boas energias.



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16/07/2007 00:00
Estepes da Mongólia – Motoqueiros

Um dos belos aspectos da Viajologia é a possibilidade de encontrar pessoas geniais e diferentes, com uma bela bagagem de estórias para contar.

Conhecer um país de motocicleta é um privilégio. Foi o que um grupo de aventureiros anglo-saxões resolveu fazer na Mongólia durante vinte dias. Três australianos, dois ingleses e um neozelandês marcaram encontro em Ulaanbaatar e, graças à logística montada pelo sueco Jan Wigsten da operadora de ecoturismo e aventura Nomadic Journeys, o grupo percorre nesse momento 300 km entre desertos, estepes, montanhas, lagos e vales.

“Paisagens magníficas, um país de grandes espaços”, conta o australiano Terri Johnston, chefe da equipe, montado em sua moto de 350 cilindradas. Todas são da marca “Planeta”, de fabricação russa, e tem a mesma cor vermelha. “Tanto o desenho como a mecânica da Planeta equivalem às nossas motos dos anos 50 ou 60”, diz Terri, conformado. “A vantagem é que, quando quebra, qualquer um conserta”.



Alguns dos integrantes da equipe são motoqueiros de carteirinha. David Nobbs, de Sidnei, fez um ziguezague nos Estados Unidos de 12.000 km em 2003, para celebrar o centenário da Harley-Davidson. Ele fez questão de viajar com a sua, trazida desde a Austrália para a jornada.

Um detalhe importante nessa estorinha: os motoqueiros são jovens de espírito, porém o mais novinho da turma tem 56 anos, o menos já leva 67. Todos confirmam que suas mentes são bem mais jovens que os respectivos corpos. “Mas enquanto a saúde aguentar, eu topo qualquer aventura”, diz Peter Elton, de 63 anos. Estou nessa!



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14/07/2007 00:00
Ulaanbaatar – Naadam 4: Luta Livre

Com tanta coisa acontecendo durante o Naadam, só consegui assistir as lutas livres na tarde do segundo dia. “Bokh”, como é chamada aqui esse tipo de luta, é reconhecida como uma importante atividade para os mongóis desde o século 13. Chinggis Khaan fazia questão de manter suas tropas em boa forma física, motivando seus guerreiros a praticar “bokh”.

O Naadam é a grande oportunidade para que novos talentos se apresentem. A competição acontece no Estádio Central e 512 foram selecionados para as nove rodadas. Como quem perde é eliminado, na oitava apenas sobram 256; na seguinte 128. E por aí vai até a final.

Os mongóis não se interessam tanto pelas primeiras etapas. Mas a partir da quinta rodada (o número 5 é chave na cultura mongol, lembram dos cavalos?) a torcida e os gritos do público podem ser ouvidos de fora do estádio. Mesmo não chegando até a final, os 16 lutadores que ganham cinco adversários seguidos são agraciados com o título de “Nachin”, uma espécie de falcão. Quem ganha sete etapas é chamado de “Zaan”, elefante.

O lutador veste um short apertado, geralmente azul celeste ou vermelho, e um colete com o peito aberto. Diz a lenda que, quando o colete era fechado à frente, uma mulher ganhou todos seus adversários masculinos, criando um tremendo mal-estar. Por isso, lutador hoje tem que entrar na luta de peito aberto.

A regra é simples: o primeiro que cair, tocando o chão com o cotovelo, joelho, costas ou cabeça, perde. Vale se apoiar com as mãos. Conversando com mongóis e atento às lutas, notei mesmo que cada lutador tem dezenas de truques, desde dar uma rasteira a segurar e levantar a perna do adversário.



Esse esporte está profundamente encravado na cultura do país e os lutadores são reconhecidos por toda a sociedade. São tão importantes como nossos heróis da seleção de futebol. Muita gente pode pensar que o esporte é bruto, quase que primitivo. Na verdade, são dois corpos masculinos, se agarrando por várias dezenas de minutos.

Mas ao mesmo tempo que a luta simboliza coragem e bravura, também exibe elegância e graça. No final da luta, o ganhador da rodada dá uma volta ao redor dos estandartes de Chinggis Khaan, performa a dança da águia. E a massa de 120 quilos parece se transformar em um frágil e meigo bailarino.


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13/07/2007 06:08
Ulaanbaatar – Naadam 3: Arco e Flecha

Impressionado ainda pelos coloridos das cores dos arqueiros, meu segundo dia de Naadam começa com arcos e flechas. Enquanto os competidores se preparam para mais uma rodada, aproveito para conversar com alguns.

Garamdorj, de 65 anos, ganhou uma medalha nacional em 1974 e hoje a leva no peito com muito orgulho. “O mais importante é amar o arco e flecha”, confessa Garamdorj. “Um bom equipamento e muito treinamento também são necessários”. Como o inverno é muito rigoroso, os arqueiros só começam a treinar mais seriamente na primavera. “Precisamos ter muita força nas mãos e nos braços”, completa.

A veterana Alimaa conta que pratica o esporte "apenas" há 17 anos. Ela se interessou pelo tiro com arco quando se aposentou, aos 50. “Não queria apenas ficar em casa”, admite. Durante sua vida ganhou mais de 30 medalhas. Ela me descreve como é feito seu arco, que contém peças de chifre de cabra, madeira, couro de camelo e fios de plástico.


Alimaa, de vermelho, mira a flecha em uma das competições matutinas

Para o piloto de avião e de ultraleve Alexander, 39, se apresentar no Naadam como arqueiro é reviver as proezas de seu ídolo Chinggis Khaan. Amigo do figurinista que preparou as roupas para um filme sobre o grande conquistador, Alexander se veste como um soldado das hordas mongóis do século 13. “Não estou de acordo com essa moda de roupas com cores chamativas. Por isso me visto como um guerreiro que vai à guerra”, diz.


Alexander e sua roupa de competição: fashion do século 13

As competições, com quatro arqueiros atirando, se desenvolve em várias rodadas. O objetivo é acertar os quatro alvos vermelhos pousados no chão, mas os outros 26 alvos negros também contam pontos.


Quando a flecha acerta um dos alvos vermelhos, os assistentes levantam os braços e cantam para comemorar

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13/07/2007 02:24
Ulaanbaatar – Naadam 2

Esses dois dias de cobertura do Naadam foram puxados. Uma correria entre os estádios e as estepes onde se realizaram as corridas de cavalo. Difícil encontrar tempo para descarregar as fotos, corrigir cores, escrever a nota do dia e colocar tudo no blog. Tempo para comer, nem pensar...

Minha intenção era ter publicado alguma coisa no blog antes das 11 h da manhã do dia 13 (aqui) ou meia noite do dia 12 aí no Brasil. Mas confesso que não deu... Por isso, coloco agora uma foto que adorei da corrida de ontem. A imagem é da chegada dos 250 cavalos, pilotados por guris de 7 a 10 anos, entrando na reta final do percurso de 30 km. Aliás, na verdade, são 60 km de corrida, pois ele fazem os primeiros 30 no trote e aí voltam a galope.

Além da espessa cortina de poeira que os cavalos levantam, observem que o primeiro colocado está junto a um cavalo sem jóquei – o menino caiu mas o cavalo chegou...

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11/07/2007 11:58
Ulaanbaatar – Naadam 1

Gente, hoje foi demais, um dos pontos altos da viagem à Mongólia. Foi bom ter seguido minha intuição de estar aqui durante essas datas.

O Naadam é A FESTA nacional, ocasião para celebrar – aproveitando o clima ameno do verão – datas políticas (86 anos de independência), a cultura mongol e os esportes tradicionais. A história conta que as três principais competições – corrida de cavalos, luta livre e arco-e-flecha – datam da época de Chinggis Khaan.

A manhã começou com pompas e circunstâncias. Os nove estandartes brancos (também inspirados no Imperador da Grande Mongólia), confeccionados com rabos de 81 cavalos, saíram do Palácio do Governo e foram levados pelos cavaleiros da Guarda de Honra até o Estádio Central. Aos trancos e barrancos com a polícia, que ainda tem modos da cortina-de-ferro, consegui seguir o cortejo.


Os estandartes brancos de Chinggis Khaan saem do Palácio

No estádio, cerca de 20.000 mongóis e visitantes esperavam os estandartes. Entre eles, o Presidente da Mongólia Nambaryn Enkhbayar e o Primeiro Ministro Miegombyn Enkhbold. O Príncipe herdeiro do Japão, de visita ao país, tomou carona na festa. Com tantos VIPs, ainda bem que eu tinha minha credencial de imprensa, que me permitiu um melhor acesso.

A festa no estádio durou umas duas horas. Teve de tudo: as tradicionais canções “longas”, danças religiosas budistas, desfile de motoqueiros e até mesmo apresentação da banda de rock Black Rose, uma das primeiras do país e muito patriota.


Mascára Tsam protegem contra as vibrações negativas

Alimentado por suco de cenoura com laranja e da bebida nacional “airag” (leite fermentado de égua) agüentei o calor e, sem trégua, fui para o estádio vizinho onde começavam as provas de arco-e-flecha. Mulheres, desde 65 metros, e homens, da marca dos 75 metros, disputavam a melhor pontaria . Mas, do jeito que se vestiam, parecia que a competição era um “fashion show”. Lindo!


Competição feminina de arco-e-flecha

Durante o trajeto de 30 km até Khui Doloon Khudag, onde acontecem as corridas de cavalo, tirei uma rápida soneca dentro do carro (mesmo se parecia uma sauna), o suficiente para recarregar a bateria.

A mais importante disputa do dia era entre os cavalos “soyolon”, aqueles que tem cinco anos. São tidos como os mais velozes, símbolo de virilidade e força. Dizem os mongóis que tocar o suor dos cavalos vencedores ou até mesmo sentir a poeira deles passando perto traz boa sorte para todo um ano, até o seguinte Naadam. Por isso, além dos meus amigos mongóis que me levaram de carro, uma boa parte da população capitalina estava fazendo o mesmo percurso. Calculei a multidão em 200 mil pessoas – mas amanhã confirmo no jornal.

Graças ao imenso engarrafamento, muita gente não chegou a ver o final da competição de 25 km. Resolvi que a pé seria mais rápido. Correndo pelas estepes, consegui fotografar a tempo os cinco cavalos vencedores, que disputavam ainda a primeira posição. Cheguei até mesmo a sentir um vento cheio de poeira, mas continuo em dúvida se era a pó dos cavalos ou das camionetas que estavam tentando estacionar…

Mais de uma centena de cavalos de cinco anos galoparam os 25 km da corrida

PS: Amanhã tem mais Naadam! Mas não vou conseguir atualizar o blog à noite porque a cerimônia de encerramento vai ser bem tarde... Mas antes da meia noite do dia 12 (hora do Brasil) vocês podem checar...

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10/07/2007 12:58
Reserva Natural Ikh Nart – À procura dos Argalis

Encontrar argalis na parte rochosa do deserto de Gobi já não é fácil. Mas fotografar esses carneiros selvagens é quase impossível – se não fosse o apoio que tive de Amgaa. Amgalanbaatar estuda os argalis desde 1990, ano da abertura política no país. Ele é considerado pelos pesquisadores daqui e de fora como a maior autoridade no tema.

Depois de um rápido café da manhã , saímos às 6 h rumo ao cume rochoso que domina o acampamento. Levamos conosco nossa principal ferramenta: uma antena e um receptor de rádio que nos dará a localização de alguns dos 22 argalis que possuem um colar com rádio acoplado. São várias as tentativas, em várias direções. Todas em vão. Fomos até enganados por um colar em funcionamento no acampamento, sem nenhum carneiro acoplado.

Decidimos ir para o sul, onde teríamos mais chances de encontrar um animal. Embora existam argalis em várias províncias do país , é em Ikh Nart, uma reserva natural de 66.780 hectares onde se concentra o maior número deles. “A presença dos argalis foi chave na criação da reserva em 1996”, conta Jed Murdoch, biólogo norte-americano e chefe do acampamento dos pesquisadores. “Usamos o argali como espécie-bandeira para proteger o habitat de outros animais”. Outras pesquisas são realizadas na reserva, que hospeda duas espécies de raposa, muitas de aves de rapina e uma dúzia de pequenos mamíferos.

Uma espécie de furgoneta russa (uma kombi mais inflada), que agüenta qualquer estrada e tranco, nos leva a uma complexa formação rochosa. Subimos mais um rochedo. Como o granito sofreu uma forte erosão por milênios é bem fácil chegar ao topo, uma vez que sempre encontro uma escadinha natural.

Lá em cima, logramos um bom sinal. A freqüência correspondia a uma fêmea adulta. Deveria estar a 2 ou 3 km, do outro lado do bloco de granito que está a nossa frente. Descemos, caminhamos 20 minutos na planície, chegamos ao pé da seguinte “ilha” de pedra e subimos.

Dessa vez não precisamos da antena. Os olhos bem treinados de Amgaa avista três fêmeas no pé da próxima ilha rochosa. Após estudarmos o relevo (não podemos caminhar no aberto), o vento (por causa do olfato dos argalis), a posição do sol (para evitar um contra-luz desastroso) e a possível movimentação dos bichos, decidimos nosso plano de ação. Contornaríamos os argalis, desenhando um círculo de 270º (ou seja, três quadrantes) em volta deles.

Após quase uma hora de caminhada, sempre acompanhando os animais com binóculos, Amgaa e eu chegamos ao ponto que queríamos. Lá estão as três belas fêmeas, comendo folhas de um arbusto, esperando apenas minha Nikon disparar uma dezena de fotogramas. Dito e feito. Mas assim que os animais sentem minha presença (mesmo sem contato visual), elas se movimentam lentamente na direção oposta.

Missão cumprida. Bem, pelo menos, a primeira delas. Eu preciso ainda de muito mais fotos de argalis. Voltamos para a furgoneta russa e repetimos o ritual por mais dez vezes!


Uma das três fêmeas come folhas de um arbusto


Uma fêmea e filhote aproveitam a sombra de um rochedo


Três machos não esperam para pousar para a foto

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Haroldo Castro

Haroldo Castro possui três paixões: contar estórias com fotos e crônicas, estar na natureza e viajar intensamente. Criou o conceito de Viajologia, que reconhece a viagem como uma escola dinâmica. Tem mais de 30 anos de experiência como fotógrafo, jornalista, diretor de documentários e estrategista de comunicação. Morou no Brasil, na França e nos Estados Unidos; trabalha em quatro idiomas e conhece mais de 130 países.

> O estrategista da natureza

 
 
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