27/07/2007 22:58
OBRIGADO, MONGOLIA

Parto depois de um mês de viagem nesse país fascinante. Nem sei porque esperei tanto tempo para visitar essas terras espremidas entre o dragão chinês e o urso russo. Talvez pelo simples fato que viajar ao “país do céu azul” só passou a ser menos complicado a partir da saída dos soviéticos em 1990 e de sua imediata democratização...

Vou sentir muitas saudades da Mongólia. Algumas das razões:

O sorriso das pessoas. Existe ainda uma ingenuidade e uma certa leveza no ar. Embora a economia de mercado livre tenha entrado de frente, as pessoas não tem aquela malandragem de tirar proveito de tudo. Como quase todos mongóis eram ou tem parentes nômades, existe um espírito de liberdade presente nas suas almas. Para marcar essa qualidade, aqui vai uma foto de um menino nômade, com um bebê ovelha - a ovelha dorme com ele na “ger”



A hospitalidade. Mais uma vez o DNA de nômade. É regra no país: quem passa por uma “ger” tem comida e colchão. Senti essa generosidade em vários momentos. Combina com a dificuldade que o ambiente apresenta, principalmente no inverno.

As paisagens espetaculares. Apesar de ter estado apenas na parte central do país e não na região dos lagos, no oeste, as paisagens intermináveis – planícies, estepes, desertos – dão um sentido de liberdade muito grande. Difícil encontrar lugares onde você pode, nos 360 graus a seu redor, ver apenas a linha do horizonte. Isso marca as pessoas. Para celebrar essa beleza natural, coloco essa imagem de duas “gers” aos pés de uma colina de granito.



Poderia continuar escrevendo muito porque vou sentir saudades da Mongólia. A relação dos mongóis com seus cavalos, o festival Naadam na capital e nas províncias, os monastérios budistas ou ainda o interesse crescente por essa crença trazida do Tibete que combina magia, devoção e pragmatismo.

Embora quase todos aqueles que me ajudaram nessa viagem não possuem conexão internet e não lêem português, quero agradecer a todos vocês por esse maravilhoso mês.

Um especial agradecimento ao sueco Jan Wigsten que, depois de 27 anos na Mongólia, mostrou uma enorme hospitalidade. Sem o apoio de Jan e da
Nomadic Journeys eu não teria conseguido realizar nem metade dos 15.000 cliques. Obrigado, amigo. E obrigado também à Sociedade Internacional de Ecoturismo (TIES) por ter me colocado em contato com o “profeta” do turismo responsável na Mongólia.

Durante dois dias estarei em transição. Volto na segunda-feira com uma nova estória, dessa vez já da China.

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27/07/2007 11:53
Parque Nacional Hustai – O Cavalo Selvagem regressa a seu lar

Na área da conservação da natureza, onde um zero a zero já é uma vitória, a história dos cavalos selvagens representa um grande sucesso.

O último cavalo selvagem a ser observado na natureza foi no deserto de Gobi, na Mongólia, em 1969. Depois disso, a espécie foi considerada extinta. Mas foi impossível, para aqueles que tem uma paixão por eqüinos, assumir que essa espécie silvestre não voltaria a galopar as estepes e as planícies da Ásia Central.

Rapidamente verificou-se alguns cavalos selvagens ainda viviam em vários zoológicos na Europa e nos Estados Unidos. Uma mobilização, liderada pelos holandeses, fez com que alguns indivíduos fossem escolhidos para voltar à terra de seus ancestrais. No dia 5 de junho de 1992, para comemorar o Dia Mundial do Meio Ambiente, 16 cavalos de diferentes zoológicos europeus chegaram na Mongólia. Dois anos depois foram re-introduzidos no parque nacional Hustai, a 160 km da capital Ulaanbaatar.

Por isso mesmo, minha visita ao país não estaria completa se eu não passasse pelo menos um dia em Hustai. Cheguei no meio da tarde e cerca de 100 turistas esperavam o entardecer para observar os cavalos em seu ambiente natural. As orientações que recebi foram bem claras: ninguém sai do acampamento antes das 19 horas. “Se sair antes, você não verá nenhum “takhi” (nome em mongol) pois durante o dia eles estão no alto das montanhas, na sombra das florestas”, disse um guia. Gostei da desculpa, uma excelente maneira de conter as hordas invasoras de visitantes. Mas cavalo não tem medo de sol.

Dei uma choradinha bem brasileira, expliquei a importância do blog e que “meus assíduos leitores” estariam muito decepcionados em não ver uma foto do cavalo selvagem. Consegui, assim, sair três horas antes da turma.

Não rodamos nem 2 km e vi uma camioneta parada; e gente no alto de um morro. Sem dúvida tinha algum cavalo por lá. Tomei fôlego e subi. Um quilômetro depois, cheguei no topo e ali estavam eles: um grupo de quatro jovens machos.


Dois jovens "takhis"

O cavalo selvagem ou cavalo Przewalski – foi um coronel russo que identificou a espécie em 1880 – é bem diferente do doméstico. “É bem menor, não passa de metro e meio de altura, tem um pescoço curto e tem uma crina pequena” explica Usukh Jangal, que tem um mestrado em biologia e que fará sua dissertação de doutorado sobre o takhi.
“Dos 200 que temos hoje em Hustai, 170 nasceram aqui. Somente em 2007, tivemos 60 novos filhotes”, completa o biólogo, entusiasmado com o sucesso do empreendimento.

Fotografei os quatro jovens de frente, de lado e de costas, sozinhos e em conjunto, pois esse poderia ser o único grupo observado! Depois de quase uma hora de curtição, desci a morro e seguimos caminho. Mais uma surpresa 3 km depois e, dessa vez, um grande presente: um harém de 14 cavalos, incluindo 4 filhotes do ano, cruzava a estrada quando chegamos. Os animais, principalmente os adultos, nem se importaram com minha presença e continuaram a comer a relva. Os filhotes, ainda mamando, me olhavam com curiosidade.


Os filhotes curiosos foram os primeiros a se aproximar

“Jamais dois sem três”, diz um ditado francês. O terceiro grupo, encontrado quando o sol já tinha desaparecido, também era um harém: o alazão macho, suas sete fêmeas e uma cria.


No total, vimos 27 cavalos - muito mais do que eu esperava

Durante o jantar, Usukh Jargal explicou como os primeiros anos foram muito difíceis para os animais que viviam em cativeiro. “Tiveram que aprender a escavar neve para encontrar vegetação”, esclareceu. “Mas como são animais muito inteligentes e sabem gerenciar energia, seja no verão seco como no inverno pesado, eles conseguiram se adaptar ao ambiente natural. Estou muito orgulhoso em participar desse programa”, diz o sorridente Jargal, cujo nome em mongol significa “alegria”.

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26/07/2007 21:33
Erdene Zuu – Resposta

Vamos lá. Pra começar todas as portas estão direcionadas aos quatro pontos cardeais, assim que nada de Sudeste ou Noroeste.

A porta Norte não pode ser, pois tem gente (lá no fundo) antes da porta, seguindo a procissão.

A porta Sul também não: é a entrada principal, cheia de camionetas. É a menos fotogênica.

Sobra então a Leste e a Oeste. Na porta do Oeste, o grupo estaria do lado esquerdo das estupas, visto que o cortejo segue o sentido horário. Não é o caso.

Por causa da sombra e do horário (depois das 15 horas), quem disse porta Leste acertou.

Quem escreveu primeiro – a Flavia – ganhou, mas não levou. O seguinte a responder Leste foi o Marcelo José Barbosa. Parabéns.

Para celebrar os longos lenços azuis, aqui vai mais uma foto de um “owoo” no topo da Black Mountain, Montamha Negra. A planície ao fundo é o deserto de Gobi. Quem adivinhar quantos lenços azuis tem nessa foto, ganha um outro... (brincadeirinha)... Porém, já que a brincadeira deu certo, teremos mais sorteios e brindes adiante... Afinal, eu trouxe lenços de cada um dos quatro templos que visitei.

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26/07/2007 12:08
Erdene Zuu – Mate a charada e ganhe um lenço sagrado

Comprei em Erdene Zuu e nos outros três monastérios longos lenços de seda, geralmente de cor azul celeste (também de outras cores: brancos, verde, amarelo e vermelho). Vocês repararam nesses lenços em muitas das fotos do blog, incluindo a do Owoo (post dia 18/7).

A primeira pessoa que responder a pergunta abaixo, ganhará (em setembro, quando eu voltar ao Brasil) um desses lenços azuis sagrados. Combinado?

Veja a primeira foto do post anterior (detalhe abaixo), quando a procissão tem como fundo as estupas e uma enorme porta, com um grande telhado. A pergunta é: Essa porta do monastério de Erdene Zuu é a porta Norte, Leste, Sul ou Oeste?


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26/07/2007 11:27
Erdene Zuu – Boa dica de Omega Megog

Durante viagens onde muita coisa está em aberto – do itinerário a ser escolhido às pessoas que você vai conhecer – existe um “tipo de sorte” que tem de estar do seu lado. Dei o nome de
Omega Megog a essa energia que leva os viajantes ao lugar certo, na hora exata. É como se fosse uma força maior, uma divindade, que se encarrega de mostrar o caminho que você deve tomar – e não um outro qualquer.

Omega Megog atuou com toda sua sabedoria em Erdene Zuu, o monastério budista mais importante da Mongólia. Eu sabia que eu teria às onze da manhã a oportunidade de assistir a uma cerimônia de cânticos. Porém esse seria apenas um ritual a mais, bem parecido com os que eu havia já visto em Khamaryn (post do 7/7) e Amarbayasgalant (post do 21/7). De qualquer forma, fui lá, curti o ambiente, fotografei os lamas e depois sai para almoçar na cidade de Kharkhorin. Mas, como previsto, nada de novo.

Não sei bem porque – a não ser a vontade de Omega Megog – mas algo me fez regressar ao monastério exatamente às três da tarde. Cheguei ao mesmo templo que eu havia estado no exato momento que os 20 lamas saíam em procissão! Eu havia escutado que, uma vez por mês, os lamas davam uma volta completa ao redor das quatro muralhas do monastério. E deveria ser exatamente isso que iriam fazer!

Consegui acalmar meu entusiasmo e passei a acompanhar o cortejo de lamas e devotos, tentando entender um pouco mais o que acontecia.



Todos carregavam uma caixa retangular, embrulhada em um tecido amarelo. Eram 108 textos tibetanos, os sutras sagrados. Ao som das conchas, pratos e mantras, o grupo de 50 pessoas saiu do monastério pela porta do norte e começou a contornar, em sentido horário, a longa muralha branca, adornada de 108 estupas. Um dos monges dava a volta bem rente à muralha, venerando cada estupa.



A procissão levou 40 minutos para circundar, em passo bem lento, o quadrado de 400 metros de lado. O colorido das vestimentas vermelhas e amarelas, contrastando com o branco e o azul do céu, renderam fotos sensacionais.

Mas como nem tudo é harmonioso na Mongólia, no final do circuito, o grupo teve como pano de fundo a termoelétrica de Kharkhorin, que mostrava sua fumaça escura e poluente.



Antes de sair do monastério, conversei com Natsagnyam, que trabalha no museu de Erdene Zuu. Budista praticante e estudante de Doutorado em Cultura Budista, Natsag me explicou que eu havia, sim, dado muita sorte em assistir a procissão, chamada de “Goroo”. Estávamos no quinto dia (dia auspicioso) do mês lunar, que também marcava o terceiro sermão de Sidarta Gautama Buda.

Obrigado, Omega Megog pelas boas fotos e, de quebra, pela corrida de 2 km que dei em volta ao monastério!


Amanhã, não perca: a última estorinha da Mongólia: o encontro com os cavalos selvagens!

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25/07/2007 23:50
Estepes – Falando de Águias...

Já que vocês ficaram impressionados com a dança da águia dos lutadores, aqui vai uma águia das estepes. Essas aves abundam nas planícies pois a comida é inesgotável. Várias espécies de roedores – ratinhos com ou sem rabos – proliferam no ecossistema e basta a águia mergulhar e agarrar o mais desprevenido.

Em apenas dez minutos de trajeto em camioneta, cheguei a contar 20 águias, paradas, esperando. Essa águia da foto me deixou chegar bem pertinho dela (estava chovendo) e, como eu não parecia um roedor, ela acabou voando. A foto dela no ar ficou ainda mais bonita que a imagem no chão.

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25/07/2007 13:07
Região de Simjit – Trekking de Camelo 2

Uma dos momentos inesquecíveis da caminhada foi quando passamos por uma “ger” e fomos convidados a entrar. A dona de casa Ariun Saikhan nos ofereceu imediatamente o tradicional chá mongol (leite, chá e sal) e nós, em troca, compartilhamos nosso almoço (de piquenique) com ela e seus filhos. Ariun explicou que sua renda principal provem da venda de lã de cabra para produzir casacos em cashmira. O quilo da lã fina vale 40 mil tubruks (80 reais) e cada uma de suas 100 cabras rende um quilo por ano.


Ariun e seus filhos, incluindo um bebê de um mês, dentro de sua ger

As paisagens que percorremos durante o trekking foram espetaculares. O local escolhido para passar a segunda noite foi o mais fotogênico de todos: acampamos atrás de uma bela duna de areia de 10 metros de altura. Olzii e Ehlen explicaram que a duna vem se movendo durante os anos, empurrada pelo vento oeste. O melhor foi que dormimos totalmente protegidos do constante vento.



Depois de montar a “ger” da cozinha e as barracas atrás das dunas, Ehlenbaatar, ainda motivado pelas festividades do Naadam, resolveu me mostrar como é a luta livre mongol e me chamou para um duelo. Tentei recusar o convite, mas ele foi logo me agarrando pela cintura, como os lutadores normalmente fazem. O único remédio foi deixar minha câmera em um lugar seguro e enfrentar o pastor de camelos, ainda que na brincadeira.

Durante os primeiros 15 segundos apenas medimos forças, empurrando um ao outro. Mas aí me lembrei de um bom lance que havia visto no estádio de Ulaambaatar e tentei dar uma rasteira no jovem mongol. Ele, muito mais forte que eu, manteve as pernas firmes e não caiu. Em compensação, quando ele sentiu que eu estava levando o esporte a sério, deu o troco.

Não sei como, mas em uma fração de segundo eu estava no chão. A queda de costas foi forte e soou como uma pancada surda em um tambor. Durante um bom momento, fiquei parado, apenas olhando para cima o céu alaranjado do pôr do sol – e tentando diagnosticar o estrago. Ehlen ficou meio assustado, pensando algo parecido como “que merda, matei um turista...”

No final, consegui me levantar sozinho e demos boas gargalhadas. Para tentar esquecer a forte dor, pedi que ele realizasse, no alto da duna, a dança da vitória – a que imita o vôo da águia (ou de um fênix). Tanto Ehlen como Olzii subiram e a foto dos dois bailando no pôr do sol foi meu prêmio.



PS: Quase uma semana depois, a dor nas costas passou, mas uma outra, em uma costela, piorou. Ou seja, acho que tenho uma pequena fissura mesmo. Também, quem manda ser burro e aceitar um duelo com um cara de 22 anos, muito mais forte que eu...

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23/07/2007 14:20
Região de Simjit – Trekking de Camelo

Como percorrer o mundo é um delicioso vício, um bom viajante sempre vai querer que seu próximo destino apresente algo mais desafiante ou insólito. Aliás, foi bem o que aconteceu comigo quando decidi visitar a Mongólia.

Mas além da quantidade de lugares visitados, a qualidade também é importante. Uma vez que você participou daquele tour a jato de dez países europeus em três semanas, você vai querer encontrar circuitos mais serenos, menos “fast food” e que sua jornada proporcione maior prazer. “É o que chamo de 'slow tourism', um turismo sem stress. Viajar menos significa viajar melhor”, explica Jan Wigsten, um dos empreendedores desse conceito.

Jan, com sua operadora Nomadic Journeys, está experimentando essa idéia na Mongólia. Em um país onde as condições das estradas e dos alojamentos obrigam o visitante a dedicar muito tempo para ir de um lugar a outro (muito mais que na Europa ou no Brasil), Jan decidiu aproveitar essa limitação para criar o requinte da viagem lenta: um trekking de camelo.



A caminhada pelas estepes e pelas areais levou três dias completos. Como estávamos totalmente isolados, sem ouvir ao menos um motor de carro, essa jornada nos pareceu muito mais longa. O pequeno grupo de viajantes percorreu uma média de 12 km por dia de um acampamento a outro – e mais outros 10 km às tardes para conquistar alguma montanha que pedia para ser visitada. Tudo entre 1500 e 2000 metros de altitude.

Curti muitas coisas nesse trekking. Além de baixar o volume da minha mente tagarela, adorei acompanhar a caravana de três camelos que levava nossas bagagens, mantimentos e uma “ger” que servia de cozinha e restaurante. Caminhando ao lado dos camelos (numa velocidade de 5 km/h) ou sentado no carro puxado pelos animais, foi uma delícia seguir o ritmo da marcha, tão constante que chegava a ser embriagante.

Para mim, o apogeu do dia acontecia quando chegávamos a nosso destino. Ficava sempre impressionado como os dois pastores que acompanhavam nosso périplo conseguiam montar a “ger” com tanta agilidade e destreza. Cheguei a cronometrar a instalação: em 22 minutos a cabana redonda estava de pé. Aliás, durante a caminhada, esse foi o único momento que olhei para meu relógio!


Olzii, 28 anos, e Ehlenbaatar, de 22, cuidaram dos camelos durante o trekking e montavam todos os dias a "ger" que servia de cozinha

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22/07/2007 00:00
Bayan Onjuul – Um Naadam de Província

Antes de sair da capital, Jan Wigsten, profundo conhecedor do país, me desafiou: “Sua experiência de Naadam está incompleta. As celebrações no interior são bem diferentes e você não pode deixar de conhecê-las.” Através de sua rede de contatos, Jan foi informado que um Naadam seria realizado nos próximos dias na vila de Bayan Onjuul, a 140 km de UB. E lá fomos nós.

Região de grandes planícies e pastagens, a população desse povoado da província de Tuv tem uma fascinação por treinar cavalos. Por isso, o Naadam daqui está enfocado nas corridas. Ao contrário do que aconteceu em UB, onde o acesso aos cavalos e jóqueis foi bem limitado, em Bayan Onjuul eu estava junto aos organizadores durante os dois dias da festa, vivendo passo a passo o ritual de uma corrida. Tudo muito mais íntimo.

Comecei sendo apresentado a um dos patriarcas locais, Choidog, de 76 anos, pai de 11 filhos, incluindo Badrakh, amigo de Jan e um dos organizadores do evento. Choidog vive a 25 km dali em sua “ger”, cercado de 300 cavalos, 50 cabeças de gado e 250 carneiros e cabritos. Sua paixão é treinar cavalos e já ganhou dois primeiros lugares em Naadams nacionais. Trouxe para a competição em Bayan Onjuul uns 30 animais e montou, durante cinco dias, um acampamento com parentes e amigos.

Foram seis corridas nos dois dias. O ritual de cada demora duas horas e meia. Tudo começa no acampamento. O pequeno jóquei (de 5 a 10 anos) monta no cavalo e, em companhia do treinador, dá algumas voltas ao redor das barracas. “O cavalo precisa ser esquentado pouco a pouco”, explica Badrakh. “Depois de caminhar, ele passa a trotar e galopar.” Sem aviso prévio, os jóqueis, sempre com seus treinadores, saem em disparada em direção ao lugar da largada.

As provas são por idade dos cavalos – jamais dos jóqueis. Por isso, os juízes checam a dentadura dos animais para saber se estes tem 2, 4, 5 anos ou se já são adultos. As distâncias também variam. Durante os dois dias assisti a competições de 12 até 22 km. Em três delas – o que nunca poderia ter acontecido na capital – fui convidado por Badrakh a subir em uma das camionetas que seguem a prova, na ida e na volta.


Na ida de 15 km: apenas trote

No trajeto de ida, os cavalos vão trotando; os carros escoltam o cortejo eqüino, para não deixar ninguém perder o ritmo. Eu havia sido avisado que o momento que eles dão a volta, para realmente começar a corrida, é muito delicado. Os 60 cavalos ficam muito nervosos e, antes do tiro de largada oficial, relincham e querem partir.


O momento da largada é confuso

O problema é que quando um sai, todos vão atrás. E aí não dá mais para segurar. Badrakh correu para dentro da camioneta, me chamou e lá fomos nós, agora ao lado dos cavalos. O que entendi só naquele momento foi que um dos favoritos da corrida era um cavalo de seu pai Choidog. Mesmo sendo um dos organizadores do evento e um dos poucos a ter acesso aos cavalos, Badrakh gritava pela janela do carro, instruindo Batbold, o jóquei de 9 anos. “Ele precisa dar voltas com o chicote perto da cabeça do cavalo, mas sem bater nele, para inspirá-lo a galopar mais rápido”, explicou.


Batbold corre nas estepes baixo chuva e ocupa a segunda colocação

Tudo estava indo bem: Batbold, portando o jaleco com o número 143, estava em segundo lugar. Porém, alguns minutos mais tarde, três outros emparelharam e acabaram ultrapassando o menino. Badrakh, com um olho na pista e outro no cavalo, aumentou seus gritos. “Agora usa o chicote, usa o chicote”.

O pequeno Batbold não poderia decepcionar seus parentes e foi para cima de seu adversário, na reta final. Conseguiu um bom quarto lugar e, considerando que apenas os cinco primeiros são celebrados, recebeu seu prêmio. Mas Badrakh estava inconformado. “Se tivesse chicoteado mais, teria conseguido a terceira colocação”. Graças ao Naadam de Bayan Onjuul pude entender ainda melhor a fascinação que os mongóis tem por cavalos.

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21/07/2007 07:00
Amarbayasgalant – Monastério poupado

Voltemos ao tema do renascimento do Budismo na Mongólia. Se você não leu ainda o que escrevi sobre o monastério Khamaryn no deserto de Gobi (nos dias 5, 6 e 7 de julho), vale a pena dar uma olhadinha pois esta nota tem a ver com a estória anterior.

Apenas três monastérios foram poupados em 1938 pelo furor stalinista e Amarbayasgalant foi um deles.



Construído por um imperador da Manchúria em 1737 (a Mongólia ficou quase três séculos baixo dominação dessa dinastia), o conjunto de edificações segue uma arquitetura chinesa, bem diferente dos outros dois templos que eu havia visitado. Aliás, vendo apenas uma foto, eu poderia ter jurado que esse templo se encontra dentro da Cidade Proibida em Beijing. Porém o monastério está a 360 km ao norte de UB, num contexto rural bem diferente e em uma Mongólia que eu ainda não havia conhecido.

Aqui não existem desertos ou estepes, mas vastos campos verdes, dos mais férteis do país. Durante as seis horas de trajeto, cruzei colinas com bosques, vales produtivos e intermináveis monoculturas de cereais. As montanhas são gentis, parecem até uma aquarela. Fez bem aos olhos substituir as matizes do ocre pelas variações do verde.

O monastério está situado ao pé de um morro, de frente para o sul. No século 19 contava com 2.000 monges, mas hoje são apenas 30 – mesmo se esse número cresce pouco a pouco. Também aumenta a quantidade de visitantes, principalmente mongóis, pois todos querem conhecer mais sua própria história.



Diariamente, às oito da manhã, os jovens lamas cantam sutras, textos sagrados. Entrei lentamente no templo principal, ornamentado de longas bandeirolas com as cinco cores do budismo e com colunas decoradas de dragões. Sentei, fechei os olhos e me deixei levar pelas vozes.

Quando sai do templo, vi uma jovem rastejando e passando embaixo de uma pequena estupa adornada de longos lenços azuis. Fiquei intrigado com a cena e indaguei a razão. “Quem passa por baixo dessas pedras deixa de lado todas suas vibrações negativas; é um tipo de limpeza”, responde Zula, que mora em Ulaanbaatar. “Antes de conhecer Amarbayasgalant eu não me interessava por espiritualidade. Mas esse monastério é tão fascinante que começo agora a apreciar mais o budismo”, ela completa em bom inglês. Zula, de 29 anos, tem um mestrado em biologia e é um ótimo exemplo do renascimento do budismo na Mongólia.


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Haroldo Castro

Haroldo Castro possui três paixões: contar estórias com fotos e crônicas, estar na natureza e viajar intensamente. Criou o conceito de Viajologia, que reconhece a viagem como uma escola dinâmica. Tem mais de 30 anos de experiência como fotógrafo, jornalista, diretor de documentários e estrategista de comunicação. Morou no Brasil, na França e nos Estados Unidos; trabalha em quatro idiomas e conhece mais de 130 países.

> O estrategista da natureza

 
 
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