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08/08/2007 11:50
DATONG – Valeu a viagem
Hoje é dia 8 de agosto. Dentro de exatamente um ano, em 08-08-08, às 08:08 h, os Jogos Olímpicos serão inaugurados em Beijing. Alguém tem ainda alguma dúvida se os chineses gostam ou não do número 8 ou se são supersticiosos?
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Vamos à estória de hoje. Acabo de passar dois dias em Datong. Fui a essa cidade mineira (produz carvão) de 2,6 milhões de habitantes, na província de Shanxi, a 380 km a oeste de Beijing, para conhecer três lugares espetaculares: a pagoda de madeira de Yingxian, o monastério suspenso no monte Heng e as grutas budistas de Yungang.
A negociação com o motorista de táxi para me levar a esses lugares foi um jogo de mímica. Entre sorrisos, negativas com a cabeça e um aperto de mão, acabamos chegando ao acordo de 200 reais por uma longa jornada de 250 km ao redor da cidade.
A pagoda de Yingxian é o mais antigo e maior templo de madeira na China. Por fora aparenta ter apenas cinco andares, mas por dentro são nove – outro número perfeito chinês. Sua construção pelos imperadores da dinastia Liao data do século 11 – tem um milênio de idade!
Apesar da placa em chinês dizendo que estava proibido fotografar o interior, eu considerei – com minha consciência elástica – que o aviso era válido apenas para flash, uma vez que o estalo da luz pode, repetidas vezes, macular as cores do Buda. Mas com o pouco de luminosidade que existia consegui registrar esse retrato da imponente estátua.

Como o dia seria longo, seguimos caminho para as montanhas Heng, uma das defesas naturais da China contra os invasores do norte (mais sobre o mesmo tema quando eu visitar a Grande Muralha.) O Monastério Suspenso é impressionante. Ele fica estrategicamente empoleirado na encosta do cânion Jinlong.
Também é uma obra de arte em madeira, iniciada pelos soberanos da dinastia Wei do Norte, há 1.400 anos. As pequenas habitações, escoradas por dezenas de estacas, parecem desafiar a força da gravidade.

Apesar dos avisos “Safty First” (sic), poucas vezes durante essa viagem estive tão atento a não realizar movimentos bruscos. Os corredores externos que conectam uma habitação à outra e os balcões dos aposentos monásticos medem apenas 50 a 60 cm de largura. Duas pessoas não conseguem passar juntas. Por isso, o trajeto tem um sentido obrigatório. Não se pode andar na contra-mão e qualquer ultrapassagem é um perigo. Mesmo preocupados com a segurança, os oficiais chineses deveriam organizar melhor o fluxo de visitantes, pois em alguns momentos este chega a ser demasiado. Quando entrei no templo, já haviam passado pela roleta mais de 1.200 pessoas no dia. O monastério recebe 300 mil visitantes por ano! Se uma ponte norte-americana de concreto pode desabar, imagine essa feita de tábuas de madeira centenárias...
As vistas mais belas do monastério suspenso são do alto de uma trilha que segue a encosta da mesma montanha. Para escapar da multidão, preferi ver as edificações de longe. Parecem estar incrustadas na rocha.  Se existissem apenas esses dois lugares em Datong, a viagem já teria valido a pena. Mas as grutas de Yungang são ainda mais maravilhosas... Mas hoje acabou meu espaço e meu tempo. (Também perdi a conexão do vizinho...) Voltem amanhã para conhecer o lugar onde existem 51 mil estátuas de Buda esculpidas na rocha!
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07/08/2007 00:00
XI’AN – Outros tesouros
Xi’an era um ponto chave na Rota da Seda e já no ano 742 muçulmanos edificaram uma mesquita na capital cosmopolita. O templo islâmico é quase que irreconhecível para um árabe, a não ser pelas frases do Corão esculpidas nas pedras. Todo o resto – da forma do telhado à configuração dos jardins – assemelha-se a um templo chinês.
Quando fui ao bairro islâmico, a mesquita já estava fechada e tive que deixar a visita para o dia seguinte. Passeando pelas ruelas do bairro – este, sim, bem parecido a qualquer kasbah árabe – acabei conhecendo (mais) uma universitária chinesa. Queria, como as de Beijing, praticar seu inglês comigo, pois seu sonho é ser guia turística. Em troca, ela me mostraria o labirinto da vizinhança.
No verão, o movimento à noite é intenso. As ruas do bairro árabe ficam repletas de gente. Como durante o dia faz 35º C, todos querem aproveitar a temperatura mais fresca. Vende-se de tudo, de grilos cantantes como animais de estimação a uma grande variedade de tecidos e bugigangas. Mas são os restaurantes – afinal, chinês tem paixão por comida – que são a grande atração.
Como vegetariano, encontrei um exatamente como eu queria, do tipo self-service, onde eu poderia escolher os pratos... com os olhos. Uma versão chinesa da nossa “comida a quilo”, mas com espetinhos. Você paga quantos espetinhos você consumir.

Quando Sophia (nome da minha guia) me disse o preço de cada espetinho, eu não acreditei: cinco por 1 Yuan. Traduzindo, cada espetinho custava cinco centavos de reais!
Como o local era limpo e muito simpático, imediatamente fui me servir. Havia uma meia dúzia de variedades de folhas – de espinafre a agrião – e inúmeros tipos de cogumelos. Tofus de todas as formas e consistências. Sem contar tomatinhos, batatas, pedaços de abóbora ou algas marinhas. Um verdadeiro banquete! Para os carnívoros, as possibilidades, então, eram ainda maiores.
Quando cheguei à mesa, que tem um fogareiro a gás embaixo, o panelão com um caldo fervente já estava pronto para receber os espetinhos. Cada pessoa coloca os seus e vai comendo. Em chinês, esse tipo de comida é chamado “Ma La Tang”; em inglês Hot Pot ou Panelão Quente, um nome bem apropriado, tanto pelo calor que exala constantemente como pelo sabor picante.
Depois de cozidos (o tempo de cozimento varia para cada produto), os espetinhos passam por um delicioso molho de amendoim – que também pode ser apimentado ou não. Como o conteúdo de cada espetinho é modesto, não demorei para comer 5 ou 10. Nem 20 ou 30.
Conversa vai, conversa vem, quando notei eu tinha um bom punhado de espetos no meu prato. Contei mais de 50! Só não me senti culpado quando soube que o mínimo de consumo - por mesa - deveria ser de 75 espetinhos ou 15 Yuan (R$ 3,80). Gostei tanto da “fondue” chinesa (da comida e da conta) que o jantar no dia seguinte foi no mesmo lugar!
 Duas professoras de inglês, uma americana e outra de Hong Kong, ambas vegetarianas, se juntaram à mesa para curtir o "Ma La Tang"
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05/08/2007 12:40
COMO NÃO TEMOS AINDA TRÊS VENCEDORES, VAMOS PROLONGAR O CONCURSO DE FOTOS DA MONGÓLIA MAIS UM DIA. VEJA ABAIXO, NO POST ANTERIOR..
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XI’AN – Tesouros descobertos 22 séculos mais tarde
Se você não ouviu falar de Xi’an é porque você levou bomba em História ou Geografia na escola... A cidade foi durante quase dois milênios a capital do império unificado e sede de 11 dinastias chinesas. Seus governantes eram tão ricos que um deles mandou construir um dos mais excêntricos mausoléus.
Visitar cemitérios não é meu forte, mas a verdade é que o imperador Qin Shihuangdi está ao lado dos “imortais” que edificaram tumbas que ficaram para a História, como as Pirâmides de Giza e o Taj Mahal. A principal razão de ter incluído Xi’an no meu itinerário foi visitar aqueles que deveriam “proteger” o túmulo do primeiro imperador da dinastia Qin.
O delírio de grandeza de Qin Shihuangdi fez com que ele começasse a construir seu mausoléu logo que ele foi entronado no ano 246 AC, com 13 anos de idade. Como parte da crença, ele aspirava levar consigo, no momento de deixar sua vida terrena, tudo que fosse importante. O principal para ele era seu exército. Por isso, quando ele morreu em 210 AC, com 49 anos, todo uma armada em terracota, em tamanho original, o acompanhou na seguinte vida.

Ver fotografias ou ler sobre os guerreiros de terracota, é uma coisa – estar dentro do pavilhão que protege as escavações é outra. As imagens que eu havia visto geralmente são de detalhes e, por isso, nunca pensei que os guerreiros não pudessem caber dentro de uma foto de grande angular...
São filas e filas de formações militares. Cada soldado tem uma fisionomia diferente: alguns sorriem, outros são mais sisudos. O adorno na cabeça identifica o status: quanto mais sofisticado, maior a posição. Os cavalos, também em tamanho original, parecem estar vivos: suas bocas abertas sugerem relinchos.


O fascinante de tudo isso é que o lugar, Qin Ling, só foi descoberto mais de 2180 anos depois, em 1974. Um camponês que escavava um poço encontrou um pedaço de cerâmica. Os arqueólogos ficaram boquiabertos quando ampliaram suas buscas: guerreiros e cavalos apareciam dia a dia. Eu até me lembro das primeiras notícias.
Hoje Qin Ling é atração turística para qualquer visitante estrangeiro ou doméstico. Três enormes fossas escavadas revelam o estonteante conteúdo. Infelizmente para os chineses interessados em sua própria História, os tours locais reservam apenas 30 minutos para a visita ao poço 1 (o maior de todos), enquanto que as escalas para compras levam mais de duas horas! As prioridades turísticas estão fora de ordem...
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03/08/2007 13:10
CONCURSO DE FOTOGRAFIA – Ganhe Lenço Sagrado da Mongólia
O pequeno concurso que fizemos sobre a porta do monastério de Erdene Zuu deu ibope. Por isso, como trouxe alguns lenços sagrados azuis adicionais, vamos distribuir mais três para os primeiros vencedores dessa nova brincadeira.
A idéia é fazer um “concurso” com todas as fotos da Mongólia que foram publicadas no blog Viajologia. Cada pessoa (com nome completo e email) escolhe sua foto preferida e coloca sua opção no comentário (de preferência, seguindo a lista abaixo, com data e número). Enquanto isso, o Alexandre Mansur, editor de Ciência & Tecnologia da revista ÉPOCA, e o Fabio Sabba, editor de Fotografia da mesma revista, vão escolher a foto preferida deles. Se a sua escolha for a mesma que a deles, você ganha.
O concurso começa com a publicação desse post e termina às 12 h (do Brasil) do dia 5 de agosto (dentro de dois dias).
As 61 fotos que estão concorrendo são as que foram publicadas a partir do dia 26 de junho até o dia 27 de julho. Em ordem cronológica (de baixo para cima):
26 junho: 1) Escola budista, 2) Buda de 26 metros 27 junho: 1) Porta Vermelha, 2) Três monges 29 junho: 1) Paisagem nômade, 2) Duas “gers” e menina, 3) Alexander na “ger” 30 junho: 1) Dois cavalos, 2) Guia tomando chuva 01 julho: 1) Alexander a cavalo, 2) Três cavaleiros, 3) Batdavaa tirando leite, 4) Alexander e yak 02 julho: 1) Vale do rio Tuul 03 julho: 1) “Ger” em planície verde, 2) Pássaros no deserto do Gobi 05 julho: 1) Altangerel no museu, 2) Altangerel e Danzan Rabjaa 06 julho: 1) Lama recitando sutras, 2) Owoo dos Seios, 3) Lama Iderbat nas estupas 07 julho: 1) Pôr do sol em Shambala, 2) Nascer da Lua na estupa, 3) Iderbat no mural de santos, 4) Jovem recebendo boas vibrações em Shambala 08 julho: 1) Argali conta-luz nas rochas 10 julho: 1) Argali comendo folhas, 2) Argali fêmea e filhote, 3) Três argalis correndo 11 julho: 1) Estandartes, 2) Máscara Tsam, 3) Arqueiras, 4) Quatro cavalos correndo 13 julho: 1) Cavalos correndo com poeira 13 julho: 1) Arqueiras, 2) Arqueiro Chinggis Khaan, 3) Comemorando alvo 14 julho: 1) Lutadores caindo, 2) Lutador dançando 16 julho: 1) Quatro motos, 2) Três motos 21 julho: 1) Monastério, 2) Lama e cervo dourado, 3) Zula e estupa 22 julho: 1) Cavalos trotando, 2) Cavalos a galope, 3) Batbold galopagando 23 julho: 1) Trekking de camelo, 2) Montando uma “ger” 25 julho: 1) Família nômade, 2) Acampamento na duna, 3) Dançando na duna 25 julho: 1) Águia 26 julho: 1) Procissão em Erdene Zuu, 2) Monge beijando estupa, 3) Procissão e poluição 26 julho: 1) Owoo no alto do Gobi 27 julho: 1) Dois takhis, 2) Três “takhis” filhotes, 3) Nove “takhis” 27 julho: 1) Menino com ovelha, 2) Duas “gers” e rochas
Boa sorte!!! Envie logo sua escolha!!! |
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02/08/2007 12:46
Beijing – Mercado cibernético
Demorei para incorporar as novas tecnologias fotográficas. Na década dos 80 não assumi as primeiras lentes auto-focus e até o ano passado fui fiel ao slide. Mas, para essa viagem à Ásia, decidi entrar na era digital.
Se o problema do slide era a quantidade de rolos que eu deveria transportar (e depois revelar), o desafio digital chama-se hoje GB, gigabytes. Com a sensação que se pode clicar de forma ilimitada, a quantidade de GBs consumidos cresceu dia a dia. Resultado, cheguei da Mongólia com umas 15.000 fotos, ou seja, mais de 60 GBs.
Logo saquei que meu computador não aguentaria o rojão. Quando cheguei em Beijing fui imediatamente ao bairro onde se concentram as vendas de computadores e todo o circo de acessórios. Minha intenção: comprar um disco duro (HD) de 80 ou 120 GBs para poder liberar a memória do laptop.
 A selva de pedra do mercado eletrônico
Zhong Guan Cun fica longe do centro, uns 90 minutos de táxi. Fui escoltado por duas universitárias de férias que queriam treinar, uma seu espanhol, outra seu inglês. Aliás, ainda bem que eu estava acompanhado, pois lá raríssimas pessoas falam inglês.
Quando cheguei ao saguão de um dos vários prédios, tomei um susto. Gangues de jovens sorridentes, usando camisas com as cores de sua empresa, literalmente me assaltaram. Pronunciavam nomes de marcas e produtos, me agarravam pela camisa e mostravam uma calculadora com um preço. Demorei para entender, mas aquele circo era apenas o mostruário. Nada de compra e venda ali. Quando o cliente mostrava interesse por um produto, o vendedor o levava para um andar qualquer (daquele ou de qualquer outro prédio) onde a mercadoria, sim, existia. Passado o espanto, aceitei subir e negociar.
 A luta para conquistar o cliente
Afinal, encontrei o que eu precisava, um HD de 80 GB, que poderia receber fotos do computador ou diretamente do cartão de 2GB. Pedi para que conectassem o HD a um computador para estar seguro que o produto continha mesmo os 80 GB prometidos. Achei que o preço negociado, 700 Yuans (180 reais), estava bom. Bom demais.
À noite, iniciei o processo de transferir os arquivos do laptop para o HD. Mas qual não foi minha surpresa ao ver que o produto trabalhava perfeitamente apenas os primeiros 15 minutos. Depois, congelava tudo e não tinha mais jeito.
As universitárias não estavam livres no dia seguinte e tive que enfrentar sozinho o circo eletrônico pequinês. Para complicar mais um pouquinho, resolvi ir de metrô. Demorei duas horas para chegar. Porém, uma vez lá, como faria para encontrar a loja? A fatura não tinha endereço, nem telefone.
Foi quando me lembrei da cor da camisa dos vendedores: verde claro. No meio daquela confusão toda, encontrei o uniforme certo, mostrei a fatura, a mocinha identificou o nome e me levou ao 12o andar. Sem chinês de um lado e sem inglês (ou qualquer outra coisa ocidental) do outro, a linguagem dos gestos funcionou e eles entenderam que o HD não funcionava. Ficaram todos encabulados de terem me feito voltar a Zhong Guan Cun apenas para trocar o produto. Para garantir, dessa vez eu tinha trazido meu laptop e copiei, durante uma hora, vários arquivos, sob os olhares curiosos do time de vendedores.
Moral da história: sempre que comprar um produto chinês é bom testá-lo na hora. Mas isso não quer dizer que toda mercadoria “Made in China” é de má qualidade. Na realidade, estamos assistindo, aqui e nos Estados Unidos (preocupados com a invasão dos produtos chineses), uma verdadeira batalha. Enquanto uns se esforçam para melhorar a qualidade, outros difamam influenciados pela paranóia xenofóbica.
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| Haroldo Castro |
Haroldo Castro possui três paixões: contar estórias com fotos e crônicas, estar na natureza e viajar intensamente. Criou o conceito de Viajologia, que reconhece a viagem como uma escola dinâmica. Tem mais de 30 anos de experiência como fotógrafo, jornalista, diretor de documentários e estrategista de comunicação. Morou no Brasil, na França e nos Estados Unidos; trabalha em quatro idiomas e conhece mais de 130 países.
> O estrategista da natureza |
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