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28/08/2007 02:12
LHASA, TIBETE – Um dia de boa sorte
Tashi deixou um recado: queria me ver. Fui a seu encontro tentando adivinhar o que ele iria me dizer. Eu já sabia que, por estarmos na temporada alta de turismo, todos os jipes existentes em Lhasa estavam reservados por várias semanas. Seria muito difícil conseguir um carro.
Nos sentamos em um simpático jardim de um hotel de viajantes, decorado com várias bandeiras de prece; ele pediu o chá local, eu apenas água. Tashi começou confirmando o que eu já sabia: que, se eu viajasse através de uma agência de turismo, sairia muito caro. Sozinho, pior ainda. “Você teria que pagar o aluguel do jipe e as diárias do motorista e do guia”, disse.
“Mas encontrei uma solução: conheço um excelente guia que trabalhou comigo e que também é bom motorista”, expôs. Respondi que ele tinha razão, mas que isso resolveria apenas metade da equação. O que fazer para o transporte? Ele explicou o que eu já sabia: todos os jipes estavam alugados. “Por isso, tenho uma saída: Goba, o guia, viajaria com você no meu próprio carro. Posso ficar três dias sem transporte aqui em Lhasa.”
Demorei a entender o que Tashi me dizia. Para evitar qualquer mal-entendido, pedi que ele me explicasse quais seriam meus custos durante a viagem. Ele foi direto: “Além da comida e do pernoite, você apenas cobre a gasolina e dá 20 dólares por dia ao Goba”. Custei a acreditar na proposta – graças a Tashi o périplo de três dias fora de Lhasa sairia por um custo mínimo. Era um presente que caíra dos céus!
Passamos a estudar o itinerário. Concluímos que não haveria tempo para visitar Samye e que eu me deveria me concentrar em Shigatse e Gyantse. Marcamos a saída para o dia seguinte às 13 h. “E a autorização para sair de Lhasa?” perguntei. “Não se preocupe, tenho um amigo que vai resolver isso hoje mesmo.” Mas que bela surpresa, Omega Megog!
Saí, com um sorriso nos lábios, em direção ao monastério Sera, situado a apenas 3 km do centro. Fui novamente de ônibus, dessa vez o 502. Cheguei e perambulei pelas ruelas, como havia feito em Drepung no dia anterior. Mas havia algo a mais: eu estava muito feliz, de verdade, com a idéia de viajar no dia seguinte. Estava agradecido mesmo!
Continuei a subir pelas ruelas e quando me dei conta já estava caminhando no “kora”, o circuito da peregrinação que rodeia o monastério. Todos os templos e centros sagrados tibetanos possuem um “kora”, o qual deve ser cumprido pelos devotos sempre em sentido horário. Logo encontrei uma senhora que caminhava com uma roda de orações na sua mão direita, que não parava de dar voltas. Sorridente, ela cantava o mantra “Om Mani Padme Hum”.
 Era final da tarde e a temperatura mais amena fazia com que os fiéis de Sera fizessem o roteiro do “kora”. A vista do monastério desde o morro era grandiosa. Percebi, ao fundo, um vale muito fértil, onde abundava trigo e cevada. Como nos Andes, devido ao declive, existiam aqui muitas plantações em terraço.

Quando cheguei na parte mais alta do circuito, descobri imensas pedras que haviam sido pintadas com figuras do panteão budista. O mantra "Om Mani Padme Hum" estava escrito em diversas cores e formas. A luz do sol iluminava os peregrinos que passavam pelas rochas. Todos beijavam as imagens, demonstrando imenso respeito.

Um dos monges se aproximou e trocamos algumas palavras. Gentilmente, ele me explicou o sentido de algumas das pinturas nas pedras. Aproveitei para perguntar se a palavra “Tashi” – o nome daquele que resolvera meu problema de viagem no Tibete – tinha algum significado especial. De imediato, ele respondeu “Boa Sorte”. Apenas sorri – e decidi que passaria mais tempo no topo daquela encosta, vendo os peregrinos desfilar pelas pinturas...

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26/08/2007 17:37
LHASA, TIBETE – Exercício mental em Drepung
Você já ouviu aquela estória dos 6 graus? Que estamos relacionados com qualquer pessoa do planeta através de seis contatos? Pois, algo interessante aconteceu comigo em Lhasa.
Consegui falar por telefone com um amigo de um amigo de um amigo – no caso, do meu “padrinho” sueco na Mongólia, Jan Wigsten. Fui almoçar com Tashi, um tibetano, e expliquei minhas dificuldades para conseguir sair de Lhasa. Tashi trabalhara com turismo e conhecia bem a novela. No final do almoço, ele quis saber quais seriam os lugares que eu mais desejaria conhecer. Como estou perplexo com os monastérios budistas e como esses lugares representam a singularidade do Tibete, sua “marca registrada”, minha escolha para uma eventual viagem fora de Lhasa recaiu em Gyantse, Shigatse e Samye. Tashi, sem fazer nenhuma promessa, se despediu e disse que falaria comigo no dia seguinte. Será que Omega Megog está aprontado alguma?
Mas voltemos a Drepung. O monge Bempa me disse que as 14:30 h eu deveria estar num jardim perto dali. Desde o teto, ele me mostrou um monte de árvores. Ele não conseguiu me explicar o que aconteceria, apenas compreendi que vários monges se reuniriam no local.
Aproveitei o tempo de sobra para perambular pelas ruelas de Drepung. Havia quatro grandes escolas para monges, cada uma especializada em um tipo de estudo. O Colégio Ngagpa dedicava-se, desde o século 15, ao Tantra. Loseling, o maior de todos, consagrava-se à análise da lógica. Na época de seu apogeu, Loseling possuía 180 propriedades e 20.000 camponeses pagavam tributo em produtos agrícolas para manter o colégio em operação.
O movimento ao redor das moradias aumentou. Vários monges saiam com livros sob os braços. Devia estar na hora da tal da reunião. Caminhei em direção ao jardim indicado. Como o lugar estava cercado por um muro, não consegui ver o que acontecia, mas um ruído curioso vinha do interior. Além de um vozerio confuso, eu ouvia o som de estalos, como pequenos estouros.
Encontrei a porta para o jardim. Ao entrar, me deparei com 100 ou 150 monges; um mar de túnicas avermelhadas. Os estudantes estavam repartidos em duplas. Aquele que estava sentado no chão apenas respondia e o de pé, sempre em movimento, gesticulava muito. Um monge mais idoso reparou que eu estava atônito e veio explicar. “Debatemos aqui conceitos do budismo. É para que possamos compreender melhor a essência dos ensinamentos”, disse em um inglês razoável.
 Os monges debatem em pares
Apesar de não entender nenhuma palavra em tibetano, o espetáculo era fascinante. O monge de pé questionava o companheiro e sua linguagem corporal fazia parte do ritual. Ele se afastava para definir a pergunta e dava dois ou três passos em direção a seu parceiro. Com os braços abertos, ele jogava sua mão direita levantada ao ar contra a esquerda estendida para a frente, criando um estalo agudo – aquele som que eu havia ouvido quando fora do recinto. Ele parecia enfatizar e repetir a última frase, sempre em tom interrogativo.
O monge sentado tinha tempo apenas para balbuciar algumas palavras; aquele que estava no papel inquisitivo voltava a atacar, fazendo o mesmo movimento com os braços e os estalos das palmas das mãos abertas. Se a resposta não era aceitável, o monge questionador batia três vezes com o dorso de sua mão direita na palma da mão esquerda e proclama o erro com “tsa, tsa, tsa”.
 Os ânimos parecem esquentar e o contato físico acontece muitas vezes – mas o ambiente de amizade sempre prevalece
A intensidade dos debates crescia. Passei duas horas totalmente fascinado pela cena, tentando captar os movimentos e as expressões de perguntas e respostas. Quando o ânimo de algumas duplas tornava-se acalorado, outros monges vinham escutar e até mesmo participar do debate. Perguntei que tema estava em discussão. Invariavelmente, a resposta era “filosofia budista, assuntos muito complexos”. Consegui saber apenas pistas sobre alguns assuntos: compaixão, reencarnação ou causas do sofrimento.
Essa tradição milenar de debates entre estudantes é extremamente criativa. É uma poderosa ferramenta para que o discípulo passe a entender melhor os ensinamentos aprendidos. A dialética é um aspecto vital no estudo do budismo e os debates obrigam a que mente fique esperta e alerta. Com a força de seus próprios argumentos, ele deve convencer seu parceiro, apresentando um tema baixo diversos ângulos.
Saquei que a mente de um monge tibetano deve ser tão afiada como uma navalha para poder cortar as amarras da ignorância. Ser monge não é tão fácil assim, não...
 Apesar dos dedos agressivos, os monges sabem que tudo não passa de um grande exercício mental
 Um pequeno monge de 13 anos, cercado de torcedores, questiona seu parceiro e se prepara para completar o estalo das mãos
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24/08/2007 15:56
LHASA, TIBETE – Em Drepung
Depois que coloquei o aviso em alguns pontos em Lhasa, recebi duas mensagens por telefone Uma veio de três alemãs que estavam buscando uma quarta pessoa para completar o carro. Me encontrei com elas no Snowlands Hotel. Elas me explicaram que queriam ir ao EBC, sigla em inglês para o Campo Base do Evereste.
O EBC é hoje um dos principais destinos no Tibete: todos querem ver o pico mais alto do planeta. “Em agosto, época de chuva, você fica dias esperando para ver o Evereste – pode ser muito frustrante”, me havia avisado um dos operadores de turismo. Como as alemães só voltariam no dia que eu deveria tomar o avião de volta, nada feito. Mas foi um bom sinal. Estou chegando mais perto.
Me sinto quase em casa em Lhasa. Reconheço rostos que vi na véspera, troco saudações na rua e muita gente sorri. Mesmo com a massiva presença chinesa – que incomoda todo estrangeiro – existe um astral maravilhoso na cidade. Tem algo de Cuzco. Aliás o tibetano tem muito a ver com o andino, dos traços faciais à mística do quotidiano. Sem contar a altitude: o platô do Tibete está a 4.000 metros, como o altiplano dos Andes.
Tomei o ônibus 301 que passa pela avenida Beijing Leste para visitar o monastério Drepung, situado a 8 km do centro. O cobrador me avisou onde eu deveria descer. Na esquina encontrei uma camioneta aberta. Eu e uma dezena de peregrinos (que estavam no mesmo ônibus) subimos no veículo para completar os dois últimos quilômetros de ladeira.
Construído em 1416, Drepung foi a moradia de três Dalai Lamas – até que o quinto mandou construir o Potala. Esse importante centro de poder espiritual e político tornou-se uma pequena cidade amuralhada. Em 1950, antes da invasão chinesa, mais de dez mil monges viviam aqui. Hoje, os 600 residentes (o número é limitado pelo governo) ainda vivem em habitações construídas há mais de três ou quatro séculos.
 Desde o topo de seus prédios, a vista de Drepung é ampla
As edificações – residências, templos ou colégios – foram erguidas de forma contígua, uma ao lado da outra, com apenas uma ruela separando. Mais um vez senti a necessidade de explorar os tetos para conseguir um melhor ângulo de visão. Um monge apareceu numa janelinha. Usando mímica, “disse” a ele que queria subir ao teto. Ele respondeu positivamente e me indicou a entrada.
Subi as escadas estreitas e escuras; ele me esperava no segundo andar. Em um inglês razoável, ele disse seu nome, Bempa, e me convidou para entrar e tomar o tradicional chá. Não podia deixar de aceitar nenhum dos convites.
 Bempa passa parte de seu dia lendo textos sagrados
Fiquei surpreso ao ver seus aposentos, bem maiores do que uma simples célula de monge. Logo na entrada, uma cozinha com um forno a carvão e uma salinha onde ele fazia suas refeições. Nos sentamos para tomar o chá na sua “sala de estar”. Um armário cor de laranja estava adornado com desenhos tibetanos e uma das paredes expunha três “tangkas”, pinturas sagradas. Numa mesinha, um velho computador 286 parecia ainda funcionar e muitos livros em tibetano preenchiam os cantos vazios. Um quarto aposento, reservado para suas meditações diárias, trazia uma decoração ainda mais colorida.
 A sala da moradia de Bempa com três belas “tangkas” na parede
Como já estava acostumado com o cheiro da manteiga de iaque, não tive dificuldade em tragar o chá; ofereci o biscoito que levava no bolso. Após conversarmos um pouco sobre o significado das tangkas e sobre a vida no monastério, o monge me levou até o teto para a foto que eu buscava, tudo numa atmosfera amigável e harmoniosa. Gostei de conhecer Bempa. Até pensei em raspar a cabeça, fazer voto de celibato e virar monge em Drepung...
 Ao redor do monastério, existem grandes pedras pintadas com imagens de Buda
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23/08/2007 11:58
LHASA, TIBETE – Paraíso e Inferno
Resolvi tirar a manhã para entender como faço para sair de Lhasa e viajar ao interior. Passei por pequenas agências de turismo locais, conversei com viajantes e cai na real. Minha permissão para o Tibete – aquele visto “comprado” em Beijing – me dá direito de aterrizar em Lhasa. Nada mais! Se quero sair da capital para qualquer outro canto, preciso de uma outra autorização do TTB (Tibet Tourism Bureau) e do PSB (Public Security Bureau), ambas instituições bem “bureaucráticias” nas mãos – ou garras – da administração chinesa.
Como estou viajando sozinho – alguns tibetanos até duvidam, pois conseguir a permissão individual parece ser complicado – a situação piora. Depois de vários papos, entendi que tenho três soluções: 1) me integrar a um grupo existente, 2) encontrar mais duas ou três pessoas e montar nossa própria viagem ou 3) viajar sozinho.
A primeira opção é a mais difícil. Todos os grupos ao Tibete já chegam fechados e apenas uma desistência poderia abrir essa fresta. Além do mais, seria um saco, pois eu teria que me conformar com o itinerário e a velocidade do grupo. A terceira opção é a mais tentadora, mas tem um porém: eu pago sozinho o jipe, o guia e o motorista – uma jornada de quatro dias me custa mil dólares.
Passei então a apostar na segunda opção. Seguindo dicas, escrevi e xeroquei um aviso onde eu dizia que um “viajante solitário busca 2 ou 3 companheiros para visitar os monastérios de Shigatse, Gyantse e Samye”. Coloquei meu número de celular chinês e distribui o panfleto nos hotéis mais freqüentados pelos mochileiros – Yak, Snowland, Kailash etc – e nos seus restaurantes prediletos. Tenho ainda uma quarta opção: a de ficar em Lhasa e curtir os arredores. Existiria uma quinta?
Por mais sacal que este processo possa parecer, não fiquei nem um pouco chateado. Talvez seja por estar nessas terras sagradas, onde não faz o menor sentido ficar de mal humor. Entreguei o caso, mais uma vez, ao poderoso Omega Megog e que ele resolva a charada – junto com a entrada no Potala, que ainda não consegui.
De tarde, regressei ao Jokhang. Talvez para renovar as forças.
 A entrada do Jokhang
Dessa vez, entrei dentro do templo. Talvez por não ser a hora dos tours, mas eu estava cercado apenas pelos peregrinos locais. Notei que eles traziam algo cremoso para oferecer ao templo e às divindades. Era manteiga de iaque, o bovino selvagem do planalto tibetano. O cheiro era como o de uma manteiga rançosa, entretanto muito mais forte que a manteiga comercial.
Consegui chegar ao teto do Jokhang. De um lado eu via a praça Barkhor e, do outro, todo o emaranhado de edificações do monastério. Os símbolos dourados do budismo, incluindo a Roda da Vida, brilhavam com o sol de fim de tarde. Sentei e curti.
 Patio interior do Jokhang, com a entrada ao templo principal
Um monge veio conversar comigo; ele falava um pouco de inglês. Depois de uma meia hora de conversa mais factual, ele afinal me contou que o controle chinês é constante: o número de monges em Jokhang não pode crescer, seus movimentos são limitados e ele se sente em uma jaula, apesar de estar em seu próprio país.
No Tibete, o paraíso e o inferno estão bem pertinhos um do outro.
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22/08/2007 12:43
LHASA, TIBETE – A força de Jokhang
Visitar o interior do Potala parece ser cada dia mais difícil. Todos os estrangeiros que encontrei confirmaram que é um calvário conseguir os passes de entrada. Resolvi desencanar – afinal, o governo chinês transformou o Potala em um mero museu – e repassei o problema para minha divindade da viagem. Que Omega Megog resolva esse pepino burocrático, eu tenho mais o que fazer.
Enquanto isso, querendo saber o que acontece hoje com o budismo, fui para Barkhor, epicentro do bairro tibetano de Lhasa. Reconstruída no ano 2000, a praça pode ser considerada como o coração da cidade. Ela é tão importante que é constantemente vigiada pela máquina da segurança chinesa. Uma câmera no topo de um prédio registra todos movimentos.
Dezenas de estandes enfileirados vendem os produtos básicos para que os devotos possam celebrar sua fé. Quando notei vários monges negociando com as vendedoras de lenços, roupas ou bolsas, deixei de lado a suposição que as lojinhas buscavam apenas turistas chineses ou estrangeiros como clientes. Não resisti e, mesmo sabendo que pagaria o dobro que um local, comprei – como na Mongólia – uma meia dúzia de “kathaks”, os lenços cerimoniais (já pensando no prêmio do próximo concurso de foto...) Aqui o mais comum não era o azul celeste, mas o branco.
Cruzei a praça, com a atenção voltada à fumaça que saia do “sangkang”, o local onde se queima incenso. Parecido a um grande forno – gordo e oval – o mega incensário recebia constantes ramos de zimbro, uma conífera. Não há peregrino que passe por Lhasa que não jogue um pequeno galho no fogaréu, junto com uma colherada de “tsampa”, a farinha da cevada tostada.
 O movimento de devotos é grande em frente a um dos quatro “sangkang” do templo principal de Lhasa
 O incensário é alimentado com ramos de uma conífera
A poucos metros, encontrei a entrada do templo Jokhang, um dos mais venerados centros espirituais do Tibete. Dúzias de fiéis se prostravam ao solo, como uma maneira de mostrar respeito e devoção. A seqüência era sempre a mesma. Começavam de pé, com as mãos juntas como que rezando; em seguida as mãos tocavam a testa, a garganta e o coração; finalmente, os devotos se ajoelhavam, abaixavam a cabeça, estendiam seus braços rente ao solo e levavam todo o corpo ao chão, deitando-se. Pronunciavam em voz baixa o mais poderoso de todos os mantras tibetanos, “Om Mani Padme Hum”.
No pátio do Jokhang, vi homens, mulheres, monges e monjas realizar prostrações por um longo tempo. Muitos repetiam o ritual, chamado de “chaktsal”, 108 vezes, número sagrado no budismo (para quem gosta de números, 108 = 9 x 12 = 2x2x3x3x3).
 Devotos, incluindo dois monges com pernas amarradas para mantê-las juntas, realizam o “chaktsal”
Na entrada do templo, uma fila de peregrinos dava a volta – sempre na direção das agulhas do relógio – ao redor de grandes rodas de prece, “chos khor”. Cada roda contém no interior milhares – em alguns casos, milhões – de vezes o mantra “Om Mani Padme Hum” escrito em longas tiras de papel. Sempre que a pessoa faz essa roda se movimentar, a reza entra em ação. Segundo os lamas budistas, as rodas para rezar purificam o lugar e contrabalançam o karma negativo.
 O mantra “Om Mani Padme Hum” está também gravado no lado de fora das rodas de prece
O número de pessoas parecia aumentar com o passar da manhã. O clima se tornava cada vez mais intenso. Deixei até mesmo de fotografar para saborear, a olho nu, um pouco mais essa comemoração da crença tibetana.
Apesar da mistura de culturas e da onipresença de turistas chineses ruidosos, o ambiente espiritual prevalecia. O odor do zimbro incinerado e o murmurinho dos mantras recordava a todos que aquele era um local místico. Mais que isso, mágico! Era como se estivéssemos em uma “fábrica de boas vibrações”...
Foi em Jokhang que me dei conta da coragem da alma tibetana. Apesar de estar sob o mando chinês, a energia espiritual das pessoas e do lugar ainda era mais forte e conseguia sobreviver. Mas também constatei um futuro desafio: havia ali poucos jovens. Por quantas décadas o Tibete irá manter ainda esse vigor religioso?

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21/08/2007 13:58
TIBETE – Momento mágico em Lhasa
Acordei com aquela sensação de não saber onde me encontrava. Mas, pela decoração do quarto, eu estava mesmo no Tibete. O café da manhã era servido no terraço do hotel, no quinto andar. Subi correndo o primeiro lance de escadas, esquecendo que eu estava a mais de 3.600 metros de altitude. A falta de oxigênio no ar me avisou que o pique aqui deveria ser outro, bem mais tranquilo. Vai de leve, Haroldo.
Cheguei no último andar e dei de cara com a vista de todos os telhados de Lhasa. Bandeiras de orações budistas enfeitavam os quatro cantos de cada prédio. Ao fundo, reinando sobre uma colina, lá estava ele, o palácio Potala. Mesmo de longe, dava para ver as diferenças entre o Potala da dinastia Qing (o de mentirinha, post do dia 18/08) e aquele que foi o centro espiritual e político da nação tibetana.
 O Potala visto desde o bairro tibetano
A cada garfada de granola com banana amassada, eu levantava os olhos para ver a imponente edificação. Era como um imenso ninho no topo de um monte, cercado por uma longa muralha. A vontade de ver de perto um dos ícones da espiritualidade do planeta aumentou e a granola foi engolida com rapidez.
Percorri a pé, pela avenida Beijing Leste, o quilômetro que me separava do Potala. Em poucos quarteirões, o bairro tibetano, com seus prédios e janelas levemente trapezoidais, se transformou em uma agitada cidade chinesa, com bancos, lojas e edifícios governamentais. A presença chinesa era muito maior do que eu imaginava.
A partir de outubro de 1950, quando o Tibete foi invadido pelos militares chineses, sob o pretexto de “liberar” o país do imperialismo inglês (e a ONU deixou vergonhosamente o barco rolar), a demência da Revolução Cultural maoísta dizimou mais de um milhão de tibetanos. Entretanto, nas últimas décadas, o domínio foi mais sutil: o controle chinês se propagou através de sua cultura e de uma grande transmigração; uma colonização que deixa marcas ainda mais fortes e duradouras.
Cheguei na imensa praça frente ao Potala. Os chineses fizeram questão de mostrar seu mando quando renovaram o lugar na década passada. Preferi dar as costas ao monumento moderno para prestar mais atenção ao imponente palácio. Sentei-me numa murada de um poste de luz e passei a contar, como se estivesse em transe, o número de janelas (verdadeiras!) das inúmeras edificações. Foi quase como uma meditação – quando cheguei a mais de 500, perdi a conta. Vim a saber depois que existem mais de mil quartos no conjunto.
 Para os peregrinos que visitam Lhasa, o Potala é sagrado - os visitantes do interior rezam, prostrando-se frente ao imponente conjunto de prédios construídos a partir de 1645.
Para visitar o Potala, considerado como Patrimônio Mundial pela UNESCO, eu sabia que, antes de mais nada, teria de conseguir um dia antes um passe que me daria o direito de comprar a entrada. O preço é o mesmo para todos os turistas – chineses ou estrangeiros pagam 100 Yuan (R$25). Apenas os peregrinos tibetanos, vestidos a caráter, pagam uma entrada simbólica de 1 Yuan.
Caminhei até a entrada oeste para ver como era o esquema. A portinha do guichê fechada e a placa “Não temos mais ingressos para amanhã” me deu uma primeira explicação.
Perguntando aqui e ali, entendi que eu estava em apuros. As autoridades chinesas só permitem a entrada de 700 pessoas por dia. Deste total, 500 ingressos são reservados para grupos. E eu, viajante individual e solitário, como devo fazer? A resposta: entrar na fila desde às seis da manhã, perder umas 4 ou 5 horas do dia e rezar para que o guichê não feche na sua frente. Mas isso só amanhã...
Por enquanto, resolvi curtir o Potala do lado de fora...
 Potala: um dos raros momentos sem trânsito
 Dá para entender porque fiquei contando as janelas do Potala, não é mesmo?
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20/08/2007 15:09
CHINA – De trem até o Tibete?
A melhor maneira de viajar na China, para quem não tem muita pressa, é de trem. É confortável, barato e seguro.
Mas é preciso antes passar por um teste: saber enfrentar multidões. Nas estações ferroviárias é necessário manter muita calma no meio de tanta gente agitada, que fala alto, que não respeita fila e que não faz nenhuma cerimônia para empurrar quem está na frente.
Para quem não lê os caracteres chineses e viaja sozinho – como eu – o segundo desafio é encontrar o trem certo, na plataforma correta. Por isso, chegar com 30 minutos na estação antes do horário de partida é vital. Ainda bem que os chineses usam nossos algarismos pois a informação essencial – o número do trem – é simples de reconhecer.
 Mesmo às 6 horas da manhã, as estações ferroviárias de Beijing são bem movimentadas
Uma vez dentro do trem, reina paz e tranqüilidade. Viajei pela primeira vez no trem noturno Z-20, entre Xi’an e Beijing, sem escalas. Comprei um bilhete “soft sleeper”, o “leito suave”. Teria sido mais barato ir de “hard seat”, na “cadeira dura”, mas bem menos confortável. A cabine de quatro pessoas oferece música, monitor de televisão, ar condicionado e quatro beliches. Meus companheiros de compartimento eram todos chineses, viajando a trabalho. Cordiais, sorridentes, mas, como não falavam inglês, de pouco papo. A viagem de 1200 km em 11 horas foi uma delícia e dormi muito bem.
Viajei outras quatro vezes de trem. O staff da companhia estatal sempre foi cordial e prestativo. Uma garrafa térmica, com água quente para chá, faz parte do mobiliário das cabines leito. Um carrinho (como aqueles de avião) passa oferecendo talharim instantâneo, água mineral e refrigerantes. Um outro, ainda mais saudável, vende frutas frescas. Os pêssegos brancos eram meus favoritos.
 Nos vagões "soft sleepers", frutas frescas e lavadas, prontas para serem saboreadas
Graças a um forte investimento realizado entre 1950 e 1980, a malha ferroviária da China é de quase 80.000 km. Esses trilhos transportam cerca de 1,2 bilhões de viajantes por ano. A mais nova linha – que une Beijing à Lhasa, capital do Tibete – foi inaugurada em 1º de julho de 2006. Os 4.064 km são cobertos em 48 horas, passando pela estação ferroviária mais alta do planeta, Tanggula, situada a 5.072 metros de altitude.
Para qualquer viajólogo, essa viagem de trem ao Tibete é um sonho. Para mim, era um objetivo desde que Ximena, uma amiga nicaragüense, tinha feito essa viagem em novembro de 2006. Na verdade, era uma das razões principais da minha viagem à China.
Mas tudo não passou de uma mera ilusão... Apesar de eu ter me organizado com antecedência para comprar um bilhete “soft sleeper” no Beijing-Lhasa, na última hora recebi uma resposta negativa. Nem mesmo a taxa extra de 400 Yuan (leia-se propina) ajudou. Oficialmente, as autoridades chinesas requisitaram todos os leitos durante aquela semana. E eu dancei nessa...
Não poder chegar de trem a Lhasa converteu-se na minha única grande frustração dessa viagem. Pensei até em adiar meu retorno para tentar outra data de trem. Mas como eu já havia comprado meu “visto” de entrada no Tibete – a permissão TTB, essencial para qualquer visitante à Lhasa – e que este vem com data marcada, não havia jeito: viajava de avião agora ou não conheceria o Tibete dessa vez. Não havia outra solução.
Meu coração disparou quando comecei a ver, desde a janela da aeronave, os picos nevados do Himalaia. Depois de tantos anos sonhando em conhecer o Tibete, finalmente meus pés pisariam nessa terra sagrada. Duas horas depois de aterrizar, eu estava frente ao Potala – o verdadeiro, não aquele de mentirinha de Chengde. Nem podia acreditar que eu havia chegado ao Tibete!!!
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| Haroldo Castro |
Haroldo Castro possui três paixões: contar estórias com fotos e crônicas, estar na natureza e viajar intensamente. Criou o conceito de Viajologia, que reconhece a viagem como uma escola dinâmica. Tem mais de 30 anos de experiência como fotógrafo, jornalista, diretor de documentários e estrategista de comunicação. Morou no Brasil, na França e nos Estados Unidos; trabalha em quatro idiomas e conhece mais de 130 países.
> O estrategista da natureza |
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