05/09/2007 16:47
TIBETE, SHIGATSE – Subida ao Dzong

Na parte de Lhasa construída depois de 1950 (após a invasão de Beijing) a influência chinesa é marcante. Os prédios, avenidas e lojas foram desenhados pelos novos colonialistas. Com exceção dos caracteres chineses, escritos em dourados sobre fundo vermelho, falta caráter. A arquitetura é bem quadrada, sem graça. Esse é o caso também em Shigatse, a segunda maior cidade do Tibete.

Já os bairros tibetanos são como anciões sábios, com séculos de história. Eles possuem alma. As linhas não são óbvias: quase todos os prédios (de três ou quatro andares) tem uma ligeira forma trapezoidal – assim como as janelas, estas emolduradas de negro. Até os cheiros tem mais personalidade, com a constante presença da manteiga de iaque.

Perambular por estas ruelas estreitas e sinuosas é como mergulhar no passado. Como o trajeto entre Gyantse e Shigatse foi de apenas 90 km, sobrou tempo no final da tarde. Pedi que Mingma me largasse na entrada do bairro tradicional de Shigatse, aos pés do Dzong. Eu deixaria minha intuição me guiar.


Dzong de Shigatse visto desde a entrada da cidade

O Dzong é uma fortaleza no topo de uma das colinas que domina Shigatse. Foi a residência dos reis da província de Tsang. Mas em 1959, quando os tibetanos se rebelaram contra os chineses, o palácio foi destruído.

O Dzong está em processo de reconstrução, mas ainda não está aberto ao público. Mesmo assim, resolvi subir em direção à imensa edificação. “Uma foto da fortaleza desde o teto de uma casa poderia dar certo”, pensei. Tentando buscar um bom ângulo, encontrei uma porta aberta. Dei de cara com uma menina sorridente de uns 12 anos e expliquei que eu gostaria de subir no alto da casa para uma foto. Tudo em mímica: “teto” (apontei para cima), “eu” (dedo no peito), “subir” (dois dedinhos subindo escada), “foto” (mostrei a câmera) e “Dzong” (mostrei a fortaleza). Ela riu, entendeu tudinho, me mostrou a escada e subimos os dois.

Tirei a foto – nada de excepcional – mas encontrei uma chaleira bem mais interessante. Os tibetanos montam dois painéis de alumínio côncavos, lado a lado, quase como se fosse uma antena parabólica. Colocam o grande espelho na direção do sol; o forte reflexo, num ângulo certeiro, bate de volta na base da chaleira, estrategicamente colocada. O resultado: água quente para o chá a qualquer hora do dia, sem usar nenhum combustível.


Nos tetos das casas tibetanas, a água da chaleira é fervida usando a energia solar

Cheguei até o topo de um morro ao lado do Dzong e encontrei um mar de bandeiras de preces. Os tibetanos acreditam que suas rezas são cumpridas cada vez que o vento bate nas bandeiras coloridas. Me aproximei e vi que um jovem casal orava. Acompanhei o ritual deles de longe: queimaram incenso e zimbro, ofereceram “tsampa” (a farinha tostada de cevada) ao ar e rezaram. Antes de descerem, fizeram alguns montinhos de “tsampa” e também queimaram.






Depois de queimar incenso no morro ao lado do Dzong, o casal oferece “tsang” às divindades

Pensei em conversar com eles. Mas cai na real que temas mais abstratos, como a explicação de um ritual, não eram tão simples e que o idioma da mímica, embora universal, não poderia cobrir questões filosóficas.


No Tibete, os topos e os picos dos morros, telhados de casas, passos nas montanhas e pontes sobre rios são sempre adornados com fileiras de bandeiras de preces; as bandeiras são brancas, amarelas, vermelhas, verdes e azuis

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02/09/2007 20:57
TIBETE, GYANTSE – Os Tesouros do Chörten

Antes mesmo de abrir os olhos, eu sabia que o tempo lá fora estava péssimo. O barulho da chuva e da água caindo do telhado era informação suficiente. Sai da cama, abri a cortina e confirmei: a avenida estava encharcada e o céu totalmente fechado, cinza escuro. Putsi, logo no dia de conhecer o “chörten” de Gyantse! “Tanta dificuldade para chegar até aqui e chove logo nesse dia”, pensei. Eu teria que me esmerar ainda mais para que minhas fotos pudessem vencer o tempo ruim.

“Chörten” em tibetano significa estupa. No budismo, a estupa representa a organização do universo. Tem uma base quadrada que se eleva em forma cônica. Durante essa viagem, cheguei a ver mais de duas centenas delas na Mongólia – havia 108 em Khamaryn no Gobi e outras 108 em Erdene Zuu. Pintadas de branco, as estupas mongóis eram simples e não mediam mais de 5 metros de altura.

Já a de Gyantse, construída em 1427 por um príncipe local, é uma das três maiores estupas do Tibete. Quando entrei no monastério de Pelkor Chöden, tomei um susto com a estrutura de 35 metros de altura. Seu topo era enfeitado com um cone dourado e nos quatro pontos cardeais havia um par de olhos inquisidores de Buda.


Gyantse Kumbum, uma imensa estupa repleta de riquezas artísticas; ao fundo, o tesouro natural do vale do rio Nyang Chu, com suas plantações de cevada e trigo

Subi os primeiros degraus e entrei no templo da entrada. O movimento de fiéis era intenso, um constante entra-e-sai de famílias. As mulheres traziam uma garrafa térmica ou uma vasilha com manteiga de iaque. Uma grande colherada era oferecida ao templo e colocada numa pira onde várias velas estavam acessas. Era a contribuição para que o fogo, usando a gordura como combustível, continuasse a arder.


Pira à base de manteiga de iaque; mesmo nas cerimônias, a gordura vegetal substitui cada vez mais a manteiga tradicional

Eu sabia que Gyantse Kumbum continha um precioso tesouro artístico no seu interior – afinal a palavra “kumbum” significa “cem mil imagens”. Mas eu não tinha idéia do que iria descobrir a partir daquele momento.

Saí do templo da entrada e, seguindo o sentido horário – mantendo a estupa sempre do meu lado direito – entrei na primeira capela. Meus olhos tardaram três ou quatro segundos para se adaptar à total escuridão. Paulatinamente fui descobrindo onde estava: uma estreita alcova com menos de dois metros de largura e uns três de comprimento. Todas as paredes ao meu redor estavam pintadas com figuras religiosas. Meus olhos descobriram um Buda com quatro pares de braços dourados e um rosto (que podia ser tanto feminino como masculino) que transmitia serenidade e paz. No fundo do cubículo, uma estátua (esta, sim, feminina, por seus seios redondos perfeitos) estava dentro de uma pequena estupa semi-aberta.

Passei uns dez minutos me deliciando com as obras de arte, mas decidi que era melhor passar para a segunda capela. Quando ingressei, fui vítima de mais um turbilhão de surpresas. A estátua da formosa deusa Tara fora substituída por uma das divindades iradas, protetoras do templo e dos devotos. Na parede, mais divindades furiosas, de coloração azul escura, e com oito pares de braços ameaçadores. Embora a mensagem fosse antagônica, a delicadeza das obras era a mesma que na primeira capela.

Me impressionava o fato que as pinturas eram todas originais – datavam de várias décadas antes que os portugueses chegassem ao Brasil! Algumas das esculturas foram golpeadas pela Revolução Cultural chinesa dos anos 50, mas hoje todas foram restauradas.


As capelas decoradas do chörten de Gyantse, embora ainda não sejam consideradas como Patrimônio da Humanidade pela Unesco, é uma das jóias do Tibete




Peregrinos oram nas capelas e, apesar de modestos, sempre deixam doações

Ainda bem que eu não estava no Potala, pois levei mais de uma hora para concluir a visita das capelas do primeiro andar. Subi para o segundo e decidi que eu deveria entrar em todas. Se não fotografasse, deveria deixar pelo menos uma doação de 1 “mao” (10 centavos de Yuan). Encontrei um monge e ele me disse que existiam 77 capelas!

Minha peregrinação me levou até a plataforma mais elevada, no sexto andar. Sai por uma das portas, dominada pelos olhos de Buda. A vista da cidade e dos campos verdes era magnífica. A chuva havia cessado e um pequeno facho de luz ameaçava iluminar a gigantesca estupa. De lá do alto, tirei meu celular do bolso e liguei para Tashi em Lhasa. Com um entusiasmo transbordante, contei que estava no topo do chörten e que estava maravilhado com o lugar. Agradeci efusivamente. Ele apenas sorriu. Novamente obrigado, Tashi.


Os onipotentes olhos de Buda lembram da compaixão a todos os seres vivos e que devemos ser vigilantes no nosso caminho

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30/08/2007 15:37
TIBETE – A caminho de Gyantse

Com as dificuldades de transporte que eu encontrara, Lhasa começara a ter, para mim, um gostinho de prisão. Estava no Tibete, mas sem poder sair da cidade. Por isso, eu não podia acreditar quando, de carro, eu estava a mais de 30 km da capital.

A estrada é excelente. Mingma disse que o asfalto era novo, tinha apenas dois anos. Por isso, todos os carros e ônibus trafegavam em alta velocidade. Em julho, uma van com mais de 20 passageiros perdeu a direção e caiu na ribanceira do rio Brahmaputra. Todos morreram.

Pelo pouco que eu havia notado, os chineses (e os tibetanos) são péssimos motoristas. Seus pés e mãos reagem bruscamente, as freadas e curvas são precipitadas e sem delicadeza. Para a maioria, dirigir um carro é algo muito novo – tiraram carteira nessa década.

A polícia chinesa, preocupada pela segurança (e com sua tradicional paranóia do controle) instituíra um sistema para obrigar o motorista a não ultrapassar a velocidade de 40 km/h.

Chegamos na primeira parada policial. Perguntei se Mingma precisaria daquela minha famosa permissão para sair de Lhasa. Ele disse que não e desceu apenas com seus documentos e os do carro. Regressou dez minutos depois com um papel branco, cheio de carimbos, e explicou que teríamos que viajar os próximos 25 km em 40 minutos. Essa tinha sido a maneira encontrada para controlar a velocidade dos veículos. Se ele chegasse um minuto antes da hora marcada no papel, ele seria multado.


Camponesa com cogumelos silvestres na beira da estrada

Logo estávamos rodando numa velocidade bem acima da média sugerida. Mingma notou que eu havia dado uma olhada no painel do carro e riu. “Não se preocupe, vamos dar uma parada daqui a pouco e aí compensamos”. Na verdade, todos os motoristas faziam o mesmo. Viajavam a 80 ou 90 km/h e depois paravam para uma pausa.


Vendedora de incenso

Depois de uma ponte, estacionamos no acostamento. Do outro lado, uma mulher vendia incenso. Como possuía o cheiro familiar do zimbro de Jokhang, comprei um pacotinho. A vendedora sugeriu que eu descera o barranco, até o rio. Ouvi uns ruídos estranhos, umas batidas roucas. Ao baixar, descobri vários pequenos moinhos, movidos pela água do rio, que “automaticamente” transformavam os galhos da conífera em uma pasta vermelha. Os moinhos, cada um em seu compasso, criavam assim a matéria prima para a fabricação do incenso. Fiquei impressionado com a simplicidade do processo, mas também com a astúcia de como os tibetanos haviam utilizado os recursos naturais.


Moinho para preparar a pasta de zimbro

A estrada seguiu o grandioso rio Brahmaputra até perto de Shigatse, a 270 km de Lhasa. Nesse trecho, o vale ficou mais amplo e as plantações de trigo e cevada tomaram espaço. Como no verão o sol se põe tarde, decidimos ir direto à Gyantse, cobrindo mais 90 km. Mingma me disse que a cevada dessa região é a melhor do país. O “tsampa”, a farinha de cevada tostada, utilizado nos rituais budistas, é essencial na alimentação tibetana.

Mingma notara meu entusiasmo com o moinho dos incensos e resolveu parar em outra fábrica artesanal. Entrei no pequeno galpão e os camponeses pareciam bonecos brancos. Quatro imensos moinhos de pedra trituravam grãos de cevada tostada e o fino pó branco cobria tudo e todos. Consegui tirar algumas fotos antes da minha pobre Nikon ser totalmente coberta pela “tsampa”. A última coisa que eu queria era que essa poeirinha branca penetrasse nas entranhas das lentes ou do sensor da câmera.


Moinho de pedra para produzir a “tsampa”

Quando me vi no espelho do carro, eu parecia um Papai Noel. Só consegui me livrar do pó branco que me envolvia em Gyantse. Mesmo sendo sagrada, a “tsampa” se foi depois de um bom chuveiro quente.

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28/08/2007 23:23
LHASA, TIBETE – A alma do Potala

Quando regressei do monastério Sera, encontrei outro recado de Tashi. Precisava me ver urgente. Minha primeira reação foi de susto. Será que tinha dado algum creque com a viagem a Gyantse?

Às oito da noite nos encontramos num barzinho. Embora, dentro de mim, eu estivesse um pouquinho apreensivo com essa reunião precipitada, estava confiante que os planos de viagem só seriam modificados para melhor. Tashi me recebeu com um sorriso tibetano. Ele estava sentado com um estrangeiro e fui apresentado ao australiano. Conclui que ele viajaria comigo. Mas essa opção se dissipou quando o australiano disse que seu plano era visitar o Campo Base do Evereste (EBC).

O papo imediatamente recaiu no grupo de ativistas que, há quatro meses, retirou a bandeira chinesa no EBC para colocar a tibetana em seu lugar. Em seguida abriram uma faixa com os dizeres das Olimpíadas 2008 “One World, One Dream” (Um Mundo, Um Sonho) adicionados de “
Free Tibet”. As autoridades chinesas ficaram enfurecidas com os jovens do movimento “Students For A Free Tibet” (Estudantes para um Tibete Livre) e retaliaram, punindo todos que estavam envolvidos com eles. Ironicamente, o motorista que os levou de Lhasa a EBC só não foi preso porque era chinês.

Embora minha dúvida sobre o tema da reunião ainda existisse, deixei a conversa rolar. De súbito, Tashi perguntou se eu ainda estava interessado em visitar o Potala. Respondi o óbvio. “Tenho três passes para amanhã cedo às 8 h e um dos australianos, que já visitou o palácio no ano passado, não quer ir. O único problema é que você será australiano por uma hora”, disse ele rindo. “Mas isso não muda nada seu plano de viagem a Gyantse. Vocês terão que sair do Potala às 9 da manhã de qualquer forma”.

Na manhã seguinte chegamos antes das oito no portão de entrada. O guia Mingma (nome fictício) explicou que poderíamos ter um problema na entrada. Dito e feito. Quando o oficial chinês comparou o nome (do australiano) na lista e o do meu passaporte, ele fez cara feia e disse que eu não poderia entrar. Mingma imediatamente entrou em ação e explicou alguma coisa em voz suave. Cinco minutos depois – ufa – eu estava dentro.


Luz da manhã ilumina o antigo palácio

O grupo das oito da manhã começou a subir as escadarias. Propositadamente ou não, a visita desenhada pelas autoridades chinesas começa pelo lado leste e termina no lado oeste. Ou seja, no sentido oposto ao horário – e contrário à tradição do “kora” tibetano. Será que o governo fez isso só para incomodar os peregrinos tibetanos? Mingma acha que sim. “Os chineses são muito sutis”. Enquanto subíamos, ele me explicou, em voz bem baixa, que havia passado um mês na prisão. Porque? Haviam encontrado dentro de um guia de turismo uma pequena foto dele junto com o 14º Dalai Lama. Ele esteve numa reunião com o líder político e espiritual tibetano na Índia, onde este vive em exílio. As autoridades consideraram que Mingma fazia parte de um grupo de resistência tibetana.

O Potala é um dos raros locais turísticos onde é expressamente proibido fotografar. Somente é permitido tirar fotos nas longas escadarias, durante a subida e a descida. Lá dentro, vários oficias fardados ou não, estavam de olho nos estrangeiros, chineses e até peregrinos para que todos seguissem a regra.


O Potala e sua escadaria de descida, na face oeste

Apesar de não ter a energia mística do Jokhang, alguns templos e aposentos no interior do Potala são magníficos. As estupas que encobrem os restos mortais de vários Dalai Lamas impressionam qualquer um. Mas Mingma explicou que, infelizmente, eu não poderia ficar parado, simplesmente observando detalhes de cada estátua. Tínhamos que manter o passo. Ao entrar, ele recebera um formulário com a hora de nossa entrada, 8:06. “Precisamos sair do Potala às 9:06 em ponto”, avisou. “E o que acontece se nossa visita se prolongar por 15 minutinhos adicionais? perguntei. Ele rebateu: “simples, da próxima vez que eu entrar, cinco turistas meus serão barrados; os chineses também são mestres em retaliação”.

Respirei fundo, tentando buscar o lado positivo disso tudo. Sabia que quase todos estrangeiros saiam dessa visita bem frustrados. Um lugar tão importante para a espiritualidade de um povo – para não dizer do planeta – havia sido transformado em apenas um museu. Belo, esplêndido, singular. Mas um museu. Pior, um museu com hora marcada para entrar e sair. A energia mística do Potala havia se evaporado.

Desci as escadarias como se Omega Megog tivesse conseguido meu passe para o Potala apenas para que eu pudesse compreender ainda melhor a repressão que atinge a cultura tibetana. Deu até vontade gritar “Tibete Livre”.


As bandeiras de preces, colocadas pelos peregrinos nas escadarias, são uma das poucas mostras de religiosidade no Potala

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Haroldo Castro

Haroldo Castro possui três paixões: contar estórias com fotos e crônicas, estar na natureza e viajar intensamente. Criou o conceito de Viajologia, que reconhece a viagem como uma escola dinâmica. Tem mais de 30 anos de experiência como fotógrafo, jornalista, diretor de documentários e estrategista de comunicação. Morou no Brasil, na França e nos Estados Unidos; trabalha em quatro idiomas e conhece mais de 130 países.

> O estrategista da natureza

 
 
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