21/11/2007 23:53

Louco pela natureza, nosso “Viajólogo Convidado” passou por um perrengue na Praia do Sono no último fim de semana. Ainda molhado e cansado, ele compartilha sua experiência com a turma da Viajologia. (Haroldo)

Praia do Sono: Sonho ou Pesadelo? por João Makray

Adoro acampar. Fazer trilhas e dormir em barraca é comigo mesmo. Saber preparar uma mochila é tarefa que exige experiência e muitos acampamentos de prática. Aprendi as melhores lições nesse infindável processo de acertos e erros. E esse último feriadão foi de aprendizado. Apesar de meu longo histórico de caminhadas, as forças naturais me deram um banho. Literalmente!

Depois de uma noite em branco na estrada, chegamos em Laranjeiras (perto de Paraty, RJ) às 5:30 da manhã. Estávamos exaustos e ainda tínhamos uma boa hora de trilha pela frente. Ainda chovia quando colocamos as mochilas nas costas. Ainda bem que tínhamos plásticos para nos proteger. Já era a sétima vez que eu percorria essa mesma trilha e conhecia bem os pontos críticos. Mas, depois de vários dias de chuva, eu jamais havia visto tanto barro e lama. As descidas pareciam tobogãs. As subidas eram penosas e alguns companheiros levaram tombos homéricos.

A chegada na praia do Sono foi uma injeção de alívio. Saímos do escuro da mata para desembocar na claridade da praia, com um modesto presente: a luz pálida do início do dia. Ainda não tínhamos dormido e buscávamos o merecido descanso. Entretanto, as nuvens negras anunciavam o início de um pesadelo. Montamos as barracas com rapidez para nos abrigar da chuva forte que estava por desabar sobre nossas cabeças. O vento chegou com força total. Rajadas de chuva gelada açoitavam nossas faces, contorciam nossas barracas e derrubavam nossas esperanças.


Chegada na Praia do Sono: alívio durante poucos minutos

A luta contra as forças naturais durou o dia todo. Mudamos as barracas de lugar algumas vezes, sempre tentando encontrar melhores abrigos. Esticamos lonas entre árvores para criarmos novos refúgios. Foi um constante duelo com a chuva, o vento, o frio e o cansaço. No final da tarde, uma trégua nos fez lembrar que não havíamos comido nada. Estávamos famintos! Retiramos o fogãozinho da mochila e preparamos uma deliciosa sopa de missô (pasta de soja) com cogumelos. O misso-shiro não só nos alimentou como nos mostrou que necessitávamos muita energia. Depois do quentinho no estômago, capotamos.

Passaram-se dois dias e o sol, afinal, mostrou sua cara, com um puro céu azul. Conseguimos secar nossas roupas, mochilas e barracas. Curtimos o mar e suas belas ondas: a calmaria depois da tempestade. Passados todos obstáculos, conseguimos aproveitar da praia do Sono. E nosso pesadelo se transformou no sonho que tanto esperávamos.


A Praia do Sono é um sonho de 1,3 km de areia dourada entre o azul do mar e o verde da mata da APA do Cairuçú.

João Makray mora em Campinas, SP, e é diretor de arte da
Oktala Comunicação e desenvolveu o site do Clube de Viajologia. Suas paixões são viajar e fotografar a natureza. Veja mais fotos do João em seu site.

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19/11/2007 00:33

Nossa próxima “Viajóloga Convidada” é a jornalista Guta Nascimento. Ela tem paixão por Nova Iorque e faz qualquer coisa para passar uma semaninha por lá. Ela conta um detalhe interessante (Haroldo).

Nova Iorque do segundo andar por Guta Nascimento

No Teste Mundial de Viajologia, obtive, com orgulho, diploma de Curso Técnico. Fiz 230 pontos na divertida prova criada pelo Haroldo Castro, PhD em bom-humor e sapiência mochileira. Tenho 27 países visitados e 2 íntimos. Seriam 3, mas esqueci de marcar o México, onde morei, em Acapulco, durante 6 meses, em 1990. Fazendo o teste, relembrei meus lances de Viajologia: 31 no diploma. E bota lance de viagem nisso.

A trabalho, fui a Kosovo e vi de perto o fim do massacre albanês. Também adentrei ao Afeganistão ainda durante o regime de terror dos talibãs. Conheço a fronteira do Quênia com o Sudão e a Uganda. Vi o sol se pôr no Deserto de Gode, aquele onde as crianças etíopes morriam à míngua.

A passeio subi ao acampamento base do Everest. E encarei a cratera do Kilimanjaro. Nas Maldivas, mergulhei com tubarões-martelo. Na Tailândia, com tubarões-baleia. Em Belize, desci ao Blue Hole.

Mas se há um lugar no mundo que faz meu coração bater mais forte é Nova Iorque, cidade onde morei e a qual sempre retorno. Apesar da intimidade, nunca fui à Estátua da Liberdade. Eu sei, até minha mãe também não acredita... E, passado o horror de ver as Torres Gêmeas tombarem em 2001, um triste pensamento me veio à cabeça: Puxa, eu devia ter visitado o WTC quando morava lá.

Deve ter sido por isso – o fato de não ser apegada a símbolos turísticos – que na última viagem a Nova Iorque me encantei com uma viagem dentro da viagem. Pela primeira vez na vida andei de double-deck. Aquele ônibus de dois andares que percorre a cidade com felizes turistas a bordo. Estava a trabalho acompanhando uma filmagem. Mas pela primeira vez vi uma Nova Iorque que, mesmo visitando a cidade quatro vezes por ano, nunca tinha visto!


A maçã, lá de cima do Empire State, às 7:30 da manhã

Conheço a Nova Iorque de baixo, a do metrô. E a de cima; já tive o privilégio de ter o terraço do 86º andar do Empire State Building só para mim e para os amigos que me acompanhavam numa filmagem.

Mas levemente do alto – do segundo andar de um ônibus – quase batendo com a cabeça nos sinais de trânsito, nunca tinha tido o privilégio. Pois é nesse passeio simples, tão comum nas grandes cidades de primeiro mundo, que a gente consegue ver uma outra Nova Iorque. Dessa meia-altura, tudo que já conhecemos se torna mais levemente curioso. A pizzaria mais famosa do Village. O touro de Wall Street. O prédio da ONU. As charretes do Central Park. Na Sétima Avenida - a Fashion Avenue - reparo especificamente no vaivém na faixa dos pedestres.


Quase bato com a cabeça na placa do Boulevard Malcolm X, onde o Harlem se encontra com o Central Park

Me emociono. Deve ser porque ali enxergo a Nova Iorque que tanto amo. A Nova Iorque de várias cores, de várias línguas, de várias roupas, de vários credos. A Nova Iorque apressada, contemplativa, a trabalho, de férias. Arrogante, sutil, barulhenta, festiva. Tão aberta ao estrangeiro e tão fechada em si mesmo. No calor insuportável do verão ou no frio cortante do inverno.

Sempre linda. Colorida ou em preto-e-branco.


NY em PB


Guta Nascinento é jornalista. Quando morou em Nova Iorque, trabalhou na Rede Globo. De volta ao Brasil, depois da Globo, foi para a SBT. Sócia da produtora Touareg, é uma carioca apaixonada por S. Paulo, onde mora. Seu blog é o
Migrante Digital.

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Haroldo Castro

Haroldo Castro possui três paixões: contar estórias com fotos e crônicas, estar na natureza e viajar intensamente. Criou o conceito de Viajologia, que reconhece a viagem como uma escola dinâmica. Tem mais de 30 anos de experiência como fotógrafo, jornalista, diretor de documentários e estrategista de comunicação. Morou no Brasil, na França e nos Estados Unidos; trabalha em quatro idiomas e conhece mais de 130 países.

> O estrategista da natureza

 
 
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