14/12/2007 12:45

Em companhia do sueco Jan Wigsten, da
Sociedade Internacional de Ecoturismo, continuo a viagem pelos vales de Socorro, de olho nos exemplos de turismo responsável.

SONHO SUSTENTÁVEL

A trama começa a ser conhecida no cenário paulista. José Fernandes Franco trabalhava para uma multinacional na área de marketing. Viajava para o exterior e tinha um bom salário. Um dia, quando viu que a politicagem chegara no seu limite, chutou o balde e resolveu viver seu sonho. No caso de Zé Fernandes, ele queria voltar a viver no campo. Foi quando nasceu o “Campo dos Sonhos”.

Quinze anos mais tarde, o Campo dos Sonhos é uma bela realidade: um hotel fazenda no município de Socorro, SP, que tem ocupação completa todos os feriadões e fins de semana do ano. Durante os dias de semana, grupos e convenções começam a descobrir o lugar. O empreendimento é hoje lucrativo e mais de 50 pessoas – todas trabalhando com carteira assinada – ganham um salário digno. “Fomentamos a qualidade e a legalidade”, afirma Zé Fernandes.

A conservação do meio ambiente também é vital para Zé Fernandes. Numa empresa hoteleira, isso significa saber como tratar os diversos lixos. Jan Wigsten e eu queremos conhecer o centro de triagem. Fernando Palazi, gerente do Campo dos Sonhos, mostra os diversos galpões: papelão, plástico, latinhas de alumínio, madeiras, vidros e isopor. Tudo é selecionado, embalado e enviado a seus respectivos centros de reciclagem. “Produzimos 2 a 3 toneladas de lixo inorgânico por semana. Geramos emprego e receita para o local. Também criamos consciência ambiental junto às famílias, escolas e grupos que nos visitam”, afirma Fernando.


Todo o lixo do Campo dos Sonhos é triado e reciclado

Visitei o Campo dos Sonhos pela primeira vez em maio passado. Minha melhor lembrança foram os sucos de tangerina ponkan, frescos e naturais. Bebia uns dois litros por dia, do café da manhã ao jantar. As frutas vinham do pomar do Zé Fernandes, um pomar orgânico com 50 espécies frutíferas, tratado com suas próprias minhocas caseiras.

Fernando faz questão de mostrar a “plantação” de minhocas e explica qual é o papel delas. Todo lixo orgânico produzido na fazenda – folhas, fezes de animais ou restos de comida – é levado ao minhocário. Aqui, os invertebrados entram em ação, decompondo e transformando tudo em húmus, o adubo orgânico. “Quando não existe mais alimento para as minhocas, colocamos sacos com furinhos como iscas, com ricos resíduos orgânicos no interior. Em busca de novo alimento, elas são atraídas para dentro dos sacos. Podemos assim separar as minhocas do húmus, que estará pronto para ser usado na horta”, conta Fernando. Todas as verduras, legumes e condimentos plantados no Campo dos Sonhos são orgânicos e não recebem nenhuma gota de produto químico.


"Em troca de comida, as minhocas vermelhas da Califórnia produzem adubo orgânico", diz Fernando

Para não ficar apenas com lixo e minhoca como lembranças de Socorro, Zé Fernandes nos leva à Gruta do Anjo, na fazenda de Ângelo Bertolotti. Seu pai abrira uma mina de quartzo e feldspato em 1962 no local, mas a partir dos anos 90 a mineração tornou-se inviável. Como o buraco na rocha havia criado um lago de águas límpidas dentro da mina, Ângelo abriu o espaço para a visitação e construiu 14 chalés. Ele recebe uma média de 500 pessoas mensais – no verão são 2.000. “Hoje eu vivo somente da Gruta do Anjo”, admite. Gostei da transformação dos Bertolottis: trocaram um empreendimento que detonava o meio ambiente por uma atividade de turismo que inspira os visitantes a buscar formas insólitas nas paredes da gruta, como a figura do próprio anjo. A natureza agradece.


A Gruta do Anjo: de mineração a ecoturismo

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08/12/2007 12:51

Volto a escrever uma série de posts para contar minha última viagem. Super obrigado a todos aqueles que publicaram suas histórias nesse blog e também pela enxurrada de comentários que recebemos. Os posts do Mikael e da Nancy lideraram a parada de sucessos! Parabéns!

PÂNICO EM SOCORRO

Vocês se lembram do meu mês na Mongólia? Uma figura essencial foi o sueco Jan Wigsten, da operadora Nomadic Journeys, que me ajudou com a logística para viajar a lugares menos óbvios, como o deserto de Gobi. Jan é um dos seguidores do “slow travel”, um novo conceito de turismo: menos tempo em aviões, nada de pressa, vamos curtir onde estamos.


Jan e seu totem: turismo sem pressa

Pois bem, Jan veio passar 8 dias no Brasil. E, para agradecer todo o apoio recebido por ele – a hospitalidade é uma avenida de duas vias – desenhei um circuito rodoviário que juntasse montanhas e litoral.

Começamos a jornada nos vales de Socorro, SP. O
Parque dos Sonhos, desenhado por Zé Fernandes Franco e aberto ao público desde 2002, propõe 12 atividades de aventura. Como Jan é um bastião do ecoturismo (é membro do conselho da Sociedade Internacional de Ecoturismo), Zé Fernandes e eu levamos o sueco para o topo da Pedra Grande. Para subir, mesmo com uma 4x4, tomamos tempo. Mas a descida seria em apenas 1 minuto: na Tirolesa do Pânico!

Jan olhou o rio Cachoeirinha lá embaixo, fez uma careta, mas era tarde demais. Ele estava vestido com o equipamento de descida e não poderia voltar atrás. A única coisa que ele conseguiu foi ganhar um pouquinho de tempo – talvez para tomar mais coragem. “Vai você primeiro, Haroldo. Quero ver o que acontece”, disse. Com esse empurrão e para mostrar que descer uma tirolesa de 1.000 metros não é tão amedrontador, lá fui eu.


“Toma coragem, Haroldo, você precisa dar o exemplo”, pensei.

A Tirolesa do Pânico liga S. Paulo a Minas Gerais. Parece ser a mais extensa da América Latina. Se existir outra maior, esta do Parque dos Sonhos é, pelo menos, a ponte aérea interestadual mais rápida. Era a primeira vez que Jan descia em uma tirolesa. Durante a primeira metade do trajeto, ele segurou as duas cordas com fervor. Quando viu que ele não iria despencar e cair no rio da divisa, soltou as mãos e curtiu.


Antes de descer, Jan passou por um treinamento para soltar as mãos durante o vôo e para curtir a baixada do Pânico. Afinal, era algo novo para ele...


No final, como sempre acontece, Jan adorou a descida e estava pronto para enfrentar uma das outras quatro tirolesas, menores. O sueco ficou impressionado com a estrutura do local e como Zé Fernandes conseguiu aproveitar os morros, o vale e as cachoeiras, sem impactar o meio-ambiente e promovendo uma saudável relação entre as pessoas e a natureza.

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Haroldo Castro

Haroldo Castro possui três paixões: contar estórias com fotos e crônicas, estar na natureza e viajar intensamente. Criou o conceito de Viajologia, que reconhece a viagem como uma escola dinâmica. Tem mais de 30 anos de experiência como fotógrafo, jornalista, diretor de documentários e estrategista de comunicação. Morou no Brasil, na França e nos Estados Unidos; trabalha em quatro idiomas e conhece mais de 130 países.

> O estrategista da natureza

 
 
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