Delhi - Os animais tem uma função crucial na Índia. A vaca é sagrada, o elefante Ganesha traz boa sorte, o macaco Hanumam é auspicioso. Todas as divindades estão acompanhadas de um animal. Por isso, alimentar pombos e pássaros é uma das práticas no templo dedicado à Shani (o planeta Saturno) em Old Delhi, a parte antiga da capital.
Falando em pombos, ontem à tarde assisti do terraço da casa de Dorothea, uma jornalista alemã, a um espetáculo singular. Chama-se Kabutoor Baazi, ou Duelo de Pombos. O dono de um pombal nesse bairro islâmico libera um grupo de 25 a 35 pombos. Quando eles estão no ar, um vizinho que tenha esse mesmo passatempo libera seu grupo. Na maioria das vezes, os dois grupos não conseguem se encontrar. Mas quando se encontram, os dois donos, usando um apito, chamam imediatamente suas respectivas aves. Normalmente, o grupo se divide novamente e, na confusão, alguns pombos menos treinados passam a fazer parte do outro grupo, retornam para uma outra casa e acabam mudando de dono. Assim, aquele que sabe melhor adestrar seus pombos, faz sua ninhada crescer. Aqui na India tem cada coisa diferente...
O grupo da direita tinha apenas 35 pombos quando saiu de casa. Mas ao retornar (chequei com uma foto) tinha pelo menos 50 aves!
“Existem cerca de 500 espécies de aves em Delhi, entre residentes e visitantes”, conta Ananda Banerjee, fotógrafo e autor do livro “Aves Comuns do Subcontinente Indiano”. No jantar, ele confirmou a história dos pombos. “Esse duelo pode se tornar uma paixão doentia”. Ele recomendou, se eu quisesse ver pássaros, ir bem cedo de manhã ao Parque Lodi.
Os jardins foram desenhados em 1936 ao redor de vários monumentos da dinastia Lodi. O ambiente é de paz e tranquilidade, um contraste com as buzinas e a poeira do trânsito. Centenas de pessoas corriam, caminhavam e faziam ginástica. Ou apenas passeavam. Para que voce possa sentir um pouco o local confira, com o barulho dos passarinhos, um video de 11 segundos. A dica de Ananda estava correta: pude observar quase duas dezenas de espécies diferentes de aves. Compartilho com vocês duas belas fotos: de um Myna e de um casal de papagaios.
Delhi - Cheguei na Índia direitinho. Mais que isso, de forma auspiciosa. Na última perna (de Munique à capital indiana) da longa viagem de 20 horas de vôo, ganhei um presente surpresa, um “upgrade”: me passaram para a Primeira Classe. Dormi as 7 horas de viagem numa cama-poltrona horizontal 180 graus. Cheguei relaxado e descansado. Consegui resolver as primeiras providências no aeroporto com todos meus neurônios: comprei um chip de telefone local, troquei dólares em rúpias e tomei um táxi sem ser estafado.
Se existem 10 ou 20 Brasis, triplique esse número para a Índia. Melhor, coloque um zero a mais na direita. São tantas Índias diferentes! A mais nova é a Índia Moderna, a da era digital. A imprensa, o governo e aqueles que estão ganhando muito dinheiro só querem falar desta Índia. Seis das 20 maiores fortunas do mundo encontram-se no país (os EUA tem 4 na lista!). A la Rio de Janeiro, Delhi se prepara para os Jogos da Comunidade Britânica em 2010. Mas cerca de 70% da população indiana ainda está no campo. Para essa gente, isolada da Índia flamejante, pouquíssima coisa mudou nas últimas décadas. Nos últimos séculos.
Posso não ser passageiro de primeira viagem à India. Esta é minha sétima visita. A primeira aconteceu em 1973; a segunda foi de carro, desde a França. Mas precisaria viver aqui (muitas encarnações) para compreender detalhes e minúcias. Por isso, meus primeiros dias estão reservados para encontrar pessoas. E ouvir. São geralmente jornalistas e tem muita coisa para dizer. “O novo shopping center Gurgaon, a uma hora de Delhi, representa bem as fantasias e os sonhos da classe média que desabrocha”, diz Pattralekha Chatterjee, uma jornalista bengal. “Todos ficam deslumbrados. Mas essa classe média quer mesmo viver na sua bolha de conforto, não quer nem ler, ver ou ouvir falar daqueles 800 milhões de indianos que estão fora do mercado – fora da rede.” Parece chavão mesmo, mas é a melhor palavra: país de contrastes. Ainda maior que no Brasil.
Perto do complexo PVR de cinemas, uma avenida congestionada e poeirenta (por causa das obras do Metrô de Delhi) alberga famílias que vendem cerâmica. Eles estão fora da rede. Não falam inglês, são do interior – principalmente de Uttar Pradesh e Rajastão – e vieram a Delhi tentar ganhar alguns trocados. As mulheres vestem seus saris, tradicionais de cada região. As crianças ajudam os pais. Tudo acontece na calçada da avenida cheia de poeira. Busco fotografar, nesse ambiente que beira melancolia e fatalismo, a beleza das cores. São minhas primeiras imagens dessa Índia de várias faces.
Celulares multiplicam-se na Índia. Uma chamada local custa 1 rúpia (R$ 0,04). Mas o que fascina os meninos são os joguinhos.
Rodeada de deuses da boa sorte e divindades hinduístas, essa senhora vive na calçada a vender cerâmica.
As obras do metrô de Delhi congestionam avenidas. Preferi voltar ao hotel de riquixá motorizado.
Lisboa - Duzentos anos atrás, o intempestivo Napoleão Bonaparte mudou o destino do Brasil. O imperador dos franceses, cismado com Portugal e sua aliança com a Inglaterra, decidiu invadir o extremo ocidente da Europa e a Casa Real portuguesa não teve outra escolha: se mandou para a sua mais importante colônia.
No meio dia que passei em Lisboa, resolvi (re)visitar o local de onde partiam as naus lusitanas. O marco principal é a Torre de Belém, construída sobre uma ilhota, na margem norte do rio Tejo, a poucas milhas do oceano
As caravelas que cruzavam o Atlântico despediam-se de Lisboa na Torre de Belém.
Como estávamos no bairro, minha amiga Rita me levou à antiga Confeitaria de Belém, uma casa colonial que vende os famosos “pastéis de Belém” desde 1837. Não é a toa que a casa está a uma quadra do Mosteiro dos Jerônimos. A lenda conta que foi um monge do monastério vizinho que cedeu a receita dos pastéis.
Quando pedi a receita à Dulce Roque, a supervisora da doceria, não pensei que estava cometendo nenhum sacrilégio. Mas sua resposta foi ríspida. “Se eu tivesse a receita, eu estaria milionária”. Fiz as contas e cheguei a mesma conclusão. Cada pastel custa 90 centavos de euro (R$2,25) e aos domingos são vendidos 40 mil docinhos. “Quando é dia de maratona, chegamos a 50 mil pastéis”, diz Dulce, Apenas duas pessoas (de cada vez) tem conhecimento da fórmula secreta. Os empregados preparam a matéria prima e os dois mestres pasteleiros, num quarto chamado “Oficina do Segredo”, elaboram a mistura.
Não consegui entrar na sala sigilosa, mas consegui fotografar o Diogo trazendo um bandejão de pastéis. Esse pastel português não tem nada a ver com nosso pastel frito na feira. É uma massa folheada, cozinhada no forno, que leva no seu interior um creme à base de ovos, leite e farinha. O pastel é ligeiramente doce e chega à mesa quentinho. Comi dois, como café da manhã. Perdão, aqui se diz “pequeno almoço”... Se comesse mais dois, seria almoço mesmo!
Campinas – Onde está minha segunda calça jeans? Procuro nos armários, na roupa suja, em alguma mochila e não encontro. Mas vamos em frente, não há tempo a perder. Preciso continuar a fazer a mala. Separo cinco calças, três pares de sapatos, uma dúzia de camisas. Normalmente deixo esse ritual para a última hora. Mas desta vez, resolvi arrumar tudo com dois dias antecedência.
Esta não vai ser uma viagem qualquer e preciso pensar estrategicamente em tudo que levo. Devo viajar leve, mas não posso sentir frio e nem morrer de calor. Afinal, estarei no Butão no final do inverno do Himalaia, passando por lugares a mais de 3.000 m de altitude. Mas também enfrentarei, em abril, um tórrido verão indiano. Numa mesma sacola, encontro lugar para casacos de frio e camisetas leves.
Entre 2002 e 2006, viajei como um louco. Foram 136 viagens diferentes, uma média de 27 por ano. Além de encarar aeroportos, preparar a mala era um dos maiores suplícios. Mas uma listinha de 20 itens, do óbvio (como calças) ao lembrete (lanterna ou casaco de chuva), serviu de apoio. A lista de hoje é bem parecida com a original, da década passada, que ficou colada atrás da porta de meu quarto em Washington, DC. Para quem viaja muito, ela é uma ferramenta simples que evita aquela sensação horrível de “putsi, esqueci de trazer um calção...”
Para onde vou dessa vez? Nessa segunda-feira 10/03 tomo um vôo da TAP até Lisboa. Lá passo o dia com uma amiga portuguesa, com certeza. Conheci Rita Moreno em Lhasa, quando estávamos na fila para conseguir entrar no Potala. Menciono nosso encontro na matéria publicada na ÉPOCA. Se o tempo estiver bom – a previsão é parcialmente nublado, mas sem chuvas – vamos visitar Sintra. Naquela mesma noite, embarco para Delhi, via Alemanha.
A beleza e a harmonia está presente na Índia em tudo. De forma natural.
Na manhã ensolarada da quarta-feira 12/03, uma nova jornada de dois meses terá início. Conto com sua presença ao meu lado. Seus comentários, alimento no meu dia-a-dia, são essenciais. É a primeira coisa que abro quando viajo com o notebook. Por isso, não esqueça de entrar no ícone RSS , na coluna da direita, para marcar esse blog como um de seus favoritos. E vamos embarcar nessa!
Sorriso feminino no Rajastão, capturado em novembro de 2005.
Haroldo Castro possui três paixões: contar estórias com fotos e crônicas, estar na natureza e viajar intensamente. Criou o conceito de Viajologia, que reconhece a viagem como uma escola dinâmica. Tem mais de 30 anos de experiência como fotógrafo, jornalista, diretor de documentários e estrategista de comunicação. Morou no Brasil, na França e nos Estados Unidos; trabalha em quatro idiomas e conhece mais de 130 países.